Gorillaz – The Mountain (2026)

Gorillaz – The Mountain (2026)

(Reprodução)

“Sabe, a coisa mais difícil é dizer adeus a alguém que você ama.”

Cada vez mais me parece que o Gorillaz é muito mais uma faceta de Damon Albarn e Jamie Hewlett do que propriamente uma “banda virtual”. Sempre odiei essa alcunha. Em tempos posteriores à derrocada da MTV e do videoclipe como principal forma de consumir música, ver quatro personagens animados numa tela enquanto pessoas reais tocam instrumentos e compõem canções soa quase pueril — especialmente depois da popularização das IAs generativas e de álbuns completos criados (AHEM) por bandas (AHEM) que só existem dentro de data centers que consomem mais água a cada prompt do que eu bebo de café por dia.

Mas eu divago…

Começar

The Mountain nasceu do luto, literalmente. Albarn e Hewlett começaram a desenvolver o conceito do álbum depois da morte de seus pais. Houve até uma viagem à Índia no meio do processo. O resultado é um tanto confuso — mas o luto também é. Há algo de inevitavelmente desajeitado em transformar esse tipo de experiência em arte. O luto raramente se presta a narrativas claras. Ele se infiltra, distorce, demora.

Embora algumas pessoas ainda acreditem na natureza formulaica do luto — como se houvesse cinco etapas distintas que inevitavelmente culminam na aceitação — quem já passou por um luto de verdade sabe que não é bem assim. Não há fases bem definidas, não há aceitação final. O luto sempre volta, às vezes silencioso, às vezes dormente.

No caso do Gorillaz e de sua proverbial escalada à montanha, o luto é claro — e talvez sua face mais conhecida e temida: a perda de um ente querido. Mas ele não precisa ser necessariamente assim. O sentimento também aparece com o término de um relacionamento, de um emprego ou de uma carreira; com o futuro que nunca virá, ou com um passado — às vezes até um presente — que se perdeu. O luto é particular, e cada um o sente à sua maneira. Não existe manual. E, talvez o mais difícil de admitir, é uma experiência intrínseca à condição humana.

O luto não é apenas o motor temático do álbum; ele se faz presente ao longo de toda a obra. Logo na primeira faixa, há a participação além-túmulo do ator Dennis Hopper, o primeiro de muitos antigos colaboradores que retornam, ao menos sonoramente. As participações — um elemento sempre central nos álbuns do Gorillaz — são numerosas. Arrisco dizer que este é o disco mais carregado de convidados da banda até hoje. Da realeza da música clássica indiana, representada por Anoushka Shankar, à realeza do rock alternativo, presente na figura de Johnny Marr.

Talvez por isso o álbum seja tão povoado de vozes. O luto tem esse efeito curioso: ele enche o silêncio de ecos. Conversas antigas voltam à cabeça, frases esquecidas reaparecem, vozes que já não existem continuam circulando na memória. Em The Mountain, cada participação soa um pouco assim — uma presença breve, quase espectral, que entra na música, deixa sua marca e se dissipa no éter.

The Mountain é uma jornada melancólica e belíssima através do luto de Damon Albarn e Jamie Hewlett. Albarn capitaneou o álbum enquanto Hewlett dirigiu um curta-metragem que funciona ao mesmo tempo como filme e videoclipe para o projeto. O resultado final é talvez o trabalho mais pessoal já lançado sob o nome Gorillaz.

O que sempre me incomodou na ideia de uma “banda virtual” era justamente a sugestão de distanciamento, como se aqueles personagens animados servissem para esconder quem realmente está por trás da música. Em The Mountain, acontece o contrário. Por trás dos olhos vazios de 2D e da franjinha vegana de Noodle, das colaborações e dos experimentos sonoros, o que aparece com mais clareza é algo profundamente humano: duas pessoas tentando dar forma a uma perda que, como toda perda, nunca se resolve completamente.

8.5

The Mountain – Gorillaz

Gravadora: Kong

Um belíssimo álbum sobre o luto, suas voltas silenciosas e as vozes que vem, voltam e permanecem.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.