Ecca Vandal – Looking For People to Unfollow (2026)

Ecca Vandal – Looking For People to Unfollow (2026)
(Reprodução)

Pelo que eu entendi, a Ecca Vandal não parece nem um pouco interessada em fazer um disco de rock tradicional.

Primeiro, começo com uma confissão. Faz algum tempo que estou devendo esta resenha. Nosso ditador-chefe, Luciano Vitor, o Carioca, me apresentou a Ecca Vandal através deste disco em alguma passagem nossa pelo Centro Leste, em alguma das minhas visitas à Ilha de Franklin Cascaes. Na ocasião, fizemos uma breve audição juntos e eu fiquei intrigado com a mudança de rock para trap, para R&B, para sabe-se lá que gênero musical estava entrando nos meus ouvidos. Leio que ela gosta de jazz e, inclusive, estudou isso na universidade.

Sabendo disso, as coisas começam a fazer um pouco de sentido, mas continuo intrigado.

O disco acaba parado na minha pauta. Até que ontem, finalmente, eu meti ele no som do meu carro.

LOOKING FOR PEOPLE TO UNFOLLOW começa como se fosse um disco de rock. “EYES SHUT”, “SORRY! CRASH!” e “CRUISING TO SELF SOOTHE” chegam com guitarras distorcidas, ligeiramente desafinadas, uma bateria furiosa e a energia caótica que lembra At the Drive-In e Turnstile da época de Time & Space.

Sim, todos os títulos são em caixa alta e eu vou respeitar isso. Até porque ela está gritando como se estivesse com um Shure SM57 apontado diretamente para suas pregas vocais. Ao mesmo tempo em que é tudo agressivo e até meio combativo, a voz é doce, suave e sabe quando sentar o pé no pedal de overdrive e quando ser delicada sem nunca ser melosa.

São dezessete faixas e é um grande “pague 1, leve 3” sonoro. Não apenas pela extensão do álbum, numa época em que tanta gente só lança EPs, mas pela absoluta diversidade caótica de gêneros. Tem punk, hardcore, eletrônico, trap, hip-hop, R&B e até elementos de bhangra (!). As primeiras sete faixas, até a verdadeira surra que é “MOLLY”, ficam mais ou menos (mas bem mais ou menos) com pelo menos um pé no rock. Dali em diante, estamos em terras desconhecidas.

Hic Sunt Dracones

A dobradinha “DANCE IN DEBT” e “GHOSTS” jogam trap e hardcore no mesmo liquidificador; “THEN THERE’S ONE” mergulha em batidas de inspiração sul-asiática; “BLEACH” passeia pelo hip-hop e pelo funk. E, quando parece que a coisa vai finalmente se acomodar, Vandal muda de direção outra vez. “CAME HERE FOR THE LOOT”, faixa que encerra o álbum, passeia por todos esses gêneros supracitados em vertiginosos quatro minutos e treze segundos.

Agora, a parte mais chocante é que isso tudo é tão natural que você provavelmente nem vai estranhar as mudanças entre uma faixa e outra. As transições são ridiculamente bem trabalhadas. Vandal sabe exatamente onde quer chegar, mesmo quando o caminho entre um ponto e outro passa por três chicanes e uma curva fechada.

LOOKING FOR PEOPLE TO UNFOLLOW é um disco extremamente diverso sem parecer desesperado para provar que é diverso. Tudo parece fazer parte do mesmo universo, porque a personalidade de Ecca Vandal é mais forte do que qualquer gênero que ela resolva experimentar. Contra todas as expectativas, tudo funciona.

9.6

LOOKING FOR PEOPLE TO UNFOLLOW – Ecca Vandal

Gravadora: Loma Vista

Por favor, ouça este álbum com fones e preste atenção em cada dobrinha de vocal fry que sai da garganta de Ecca Vandal.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.