A gente costuma esquecer que a coisa mais importante de qualquer festival não está no line-up.
Você sai de casa para ver uma banda e acaba encontrando alguém que não via há meses. Para no meio do caminho para conversar com um conhecido. Conhece alguém que estava esperando o mesmo show. Troca uma ideia com uma pessoa completamente aleatória e alguma coisa que ela falou gruda na sua cabeça. Muitas vezes, a gente passa mais tempo procurando os amigos no meio da multidão do que olhando pro palco.
Além dos shows — que foram incríveis — foi isso que ficou pra mim no Balaclava Fest deste ano.
Foram dois dias de música, correria, câmera no pescoço, celular vibrando, cerveja, pausas no fumódromo, gente indo de um lado para o outro e a certeza de que sempre tem alguma coisa acontecendo no meio daquela bagunça toda. E junto disso tudo, teve também uma porção de encontros. Amigos, conhecidos, gente que eu conheci no pit, o pessoal da Wishy no fumódromo, os guitarristas da Bar Italia assistindo ao show da Dry Cleaning do meu lado, meia Sorosoro na grade vendo os conterrâneos da Adorável Clichê, os Winona Riders andando de um lado para o outro, o sempre simpaticíssimo Jair Naves, da Ludovic, conversando com todo mundo: definitivamente, essa é uma das coisas mais legais de um festival, especialmente de um deste porte.
Música não é só o disco que você coloca para tocar em casa ou sua playlist cuidadosamente curada das suas favoritas. Não é só o show que você assiste. Existe todo um ecossistema em volta dela: as conversas na fila, a cerveja tomada às pressas entre dois shows, a pessoa que você encontra por acaso, a indicação de uma banda, a foto que você faz, a história que alguém te conta.
É um acumulado infinito de pequenas e grandes coisas que vão acontecendo ao nosso redor enquanto a sua banda favorita está no palco.
Música faz parte da minha vida desde que minha mãe me botou numa aula de musicalização e colocou uma flauta doce na minha mão, quando eu tinha oito anos. Não muito tempo depois, um violão Di Giorgio que estava esquecido num canto da casa virou meu objeto favorito. Um tio me presenteou com o Burn, do Deep Purple, e outro me apresentou ao The Dark Side of the Moon numa viagem de carro pelo interior de São Paulo.
Muitos anos depois, o Luciano me convidou para escrever para este singelo site. Anos depois, eu estou no pit, esperando ansiosamente para fotografar o show da Blonde Redhead, uma das minhas bandas favoritas.
Um tema recorrente nas conversas na pista e nos palcos do Balaclava Fest foi que a música salva. Eu sei. Isso soa brega pra cacete, mas é verdade.
Graham Sayle, vocalista da High Vis, disse com todas as letras que foi a música que o impediu de tirar a própria vida muitas vezes. O supracitado Jair Naves sempre fala, nos shows da Ludovic, sobre o quanto fica feliz por estar no palco, tocando.
A música é o que nos aproxima e o que nos faz sair de casa. Mas, sem o público, sem os fotógrafos no pit, sem os jornalistas prestando atenção em cada detalhe, sem o staff da casa ou a organização, nada disso acontece.
A música salva. E as conexões que fazemos também.
Talvez seja isso que me faça continuar escrevendo e carregando minha câmera pra lá e pra cá.
Meus mais sinceros agradecimentos à Balaclava, ao Tokio Marine Hall e a todo mundo que trabalhou duro neste fim de semana — muito tempo antes dele e, certamente, por muito tempo depois.
Obrigado a todas as bandas, em especial à Nina e ao Connor, da Wishy.
Mas, especialmente, obrigado Emannuel, Fernanda, Lohanne e Matheus, por terem compartilhado esses momentos comigo.



