Él Mató a un Policía Motorizado em Porto Alegre: uma noite para lembrar por que gostamos tanto de rock

Él Mató a un Policía Motorizado em Porto Alegre: uma noite para lembrar por que gostamos tanto de rock

foto por Frederico Di Lullo

Él Mató transforma o Opinião em um pedaço da Argentina.

Eu poderia começar esta resenha inventando uma justificativa muito elaborada para ter viajado até Porto Alegre neste feriadão de outubro.

Poderia escrever sobre a importância do Él Mató a un Policía Motorizado para o indie latino-americano, como já fiz diversas vezes. Poderia discorrer sobre sua relevância, discografia, influências e covers gravados por aqui, que vão de Chuck Hipolitho a Superguidis, Cassim e Barbária.

Poderia, ainda, falar sobre a importância pessoal que a banda tem para mim ou simplesmente transformar o rolê até a capital gaúcha em uma grande narrativa.

Mas, no fim das contas, a explicação é muito mais simples e dispensa qualquer malabarismo argumentativo: eu queria assistir ao Él Mató ao vivo novamente!

E isso já era motivo suficiente.

Assim, partindo do simples princípio de assistir a um show de rock, saí de Florianópolis com destino à sempre bela Porto Alegre, que, diga-se de passagem, anda em alta no meu conceito.

Logo de cara, fui surpreendido positivamente pelos ventos progressistas da capital gaúcha. Manifestações orgânicas e explícitas em favor de Lula e contra Bolsonaro tomavam conta das ruas. A Cidade Baixa e o Centro estavam mergulhados em uma onda vermelha. Efervescência mesmo!

Aproveitei o sábado para bater perna pelo Centro Histórico, passar pela Rua dos Andradas e pelo Mercado Público. No meio do caminho, ainda encontrei Marcelo Gross batendo um PFzão. Não cumprimentei, por motivos óbvios.

Antes do show, ainda deu tempo de ir ao Beira-Rio para assistir à seleção brasileira feminina de futebol. Um sábado daqueles que ainda teria seu capítulo principal no Bar Opinião.

E aqui cabe uma observação pessoal: conhecer o Opinião por dentro era um pequeno sonho antigo. Nunca tinha assistido a um show por lá, mas já havia passado incontáveis horas vendo gravações feitas naquele palco, especialmente o clássico DVD ao vivo do Tequila Baby, além de apresentações de tantas outras bandas gaúchas e de fora do estado.

Por volta das 19h, finalmente entrei no Opinião. A primeira impressão foi bastante positiva. Gostei da estrutura, que me lembrou um pouco o Carioca Club, em São Paulo. Por outro lado, estranhei a quantidade de pessoas presentes. Para um show que, pelo que havia acompanhado, prometia casa cheia, o público ainda parecia bastante tímido.

A explicação veio logo depois: boa parte da galera simplesmente não havia chegado para a abertura.

E quem perdeu, perdeu mesmo.

Gabo Islaz: uma grata surpresa

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Foto por Frederico Di Lullo

O responsável por abrir a noite foi o artista local Gabo Islaz, acompanhado por uma banda de cinco integrantes que me surpreendeu bastante. Duas guitarras, teclado, bateria e percussão ajudavam a construir uma sonoridade que transitava pelo indie rock, com boas doses de shoegaze.

Gostei especialmente da harmonia entre os músicos e da maneira como as composições eram apresentadas. Nada parecia estar ali por acaso, e a banda demonstrava uma sintonia bastante interessante no palco.

O show em si foi relativamente curto. Pelo que havia lido, Gabo estava baseando seu repertório em seu primeiro álbum, Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração, lançado em maio deste ano. Confesso que ainda não havia escutado o disco, mas gostei bastante do que ouvi e certamente vou me aprofundar nele nos próximos dias.

A apresentação deixou aquele inevitável gostinho de quero mais. O que, convenhamos, é um bom sinal quando estamos falando de uma banda que você acabou de conhecer.

Outra curiosidade que me chamou a atenção veio depois, quando encontrei algumas fotografias de Gabo vestindo uma camiseta do Sumo, mais precisamente do álbum After Chabón, um dos grandes clássicos do rock argentino.

Pronto. Ganhou ainda mais minha simpatia!

Mas não foi a camiseta que me conquistou. Foi o show mesmo. Uma apresentação curta, mas muito interessante, que me fez sair dali com vontade de conhecer melhor o trabalho do artista.

E, de quebra, foi o aquecimento perfeito para o que estava por vir.

Porque, afinal, o prato principal da noite ainda nem havia subido ao palco.

Él Mató a un Policía Motorizado: jogando em casa, mesmo longe de casa

foto por Ana Hoffmann
foto por Ana Hoffmann

Pouco depois das 20h, mais precisamente às 20h20, era chegada a hora do prato principal. Subia ao palco o sexteto argentino Él Mató a un Policía Motorizado, capitaneado pelo inconfundível Santiago Motorizado.

A essa altura, o cenário era completamente diferente daquele que encontrei quando cheguei ao Opinião. Entre 19h30 e 20h, a casa foi enchendo de maneira impressionante. E quando digo enchendo, é enchendo mesmo.

Não havia praticamente espaço para circular.

Sold out de verdade.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de camisetas da banda espalhadas pelo público, dividindo espaço com uniformes da seleção argentina, muitos deles com Messi ou Maradona nas costas.

E isso diz muito sobre o universo do Él Mató. A relação da banda com a cultura futebolística argentina não é exatamente uma novidade. Lembro que, depois da conquista da Copa do Mundo de 2022, essa identidade aparecia frequentemente nos cartazes e materiais de divulgação dos shows. Uma mistura de futebol, música e identidade latino-americana que sempre achei muito interessante.

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Foto por Ana Hoffmann

Minha última experiência com a banda havia sido no Primavera Sound de 2023, em São Paulo. Um show que gostei bastante, mas que deixou aquela vontade de assistir a uma apresentação solo, com mais tempo e um público inteiramente dedicado aos argentinos.

A última passagem do grupo por Porto Alegre havia acontecido em 2022, em uma turnê que infelizmente não consegui acompanhar. Mas a possibilidade de assistir ao Él Mató naquela cidade ficou guardada no imaginário. Sabia que, em algum momento, precisaria resolver essa pendência.

E, convenhamos, muita coisa aconteceu de lá para cá.

A Argentina conquistou a Copa do Mundo, Lula voltou à Presidência, Bolsonaro acabou preso e o mundo continuou girando em uma velocidade cada vez mais absurda. Nesse intervalo, o Él Mató também consolidou seu espaço no panteão das grandes bandas latino-americanas contemporâneas.

E ali estava eu, quatro anos depois, finalmente dentro de um Opinião lotado, prestes a assistir a uma das minhas bandas favoritas.

Sob um fundo vermelho, os seis músicos surgiram no palco.

E bastaram os primeiros acordes para incendiar absolutamente tudo.

O show começou com “Navidad en los Santos”, faixa do primeiro álbum da banda, e seguiu com “Un Segundo Plan”, que abre o trabalho mais recente dos argentinos.

E foi justamente nessa segunda música que o Opinião veio abaixo. Com uma sonoridade mais dançante, teclados e sintetizadores que remetem ao Tame Impala, a faixa transformou a casa em uma grande celebração coletiva.

E aqui cabe mais uma observação que considero uma das mais interessantes da noite.

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Foto por Ana Hoffmann

Fazia muito tempo que eu não via uma banda latino-americana, cantando em espanhol, ter suas músicas entoadas a plenos pulmões por centenas de jovens brasileiros. Claro que havia argentinos espalhados pelo público, mas a maioria era formada por brasileiros que conheciam as letras, cantavam, dançavam e se entregavam ao show desde o primeiro minuto.

E isso diz muito sobre um movimento interessante que vem acontecendo em Porto Alegre.

A cidade parece estar cada vez mais aberta à música produzida pelos nossos vizinhos latino-americanos. O próprio sold out do Él Mató no Opinião é um excelente exemplo disso. E não é um caso isolado: a agenda ainda reserva nomes como Los Mirlos, além de festivais que abrem espaço para atrações como Pibes Chorros, Aterciopelados e outros representantes dessa efervescência musical.

É muito interessante perceber essa aproximação cultural acontecendo de maneira tão orgânica. Afinal, estamos falando de um continente com uma produção musical gigantesca, mas que, por muito tempo, pareceu encontrar dificuldades para atravessar nossas próprias fronteiras linguísticas.

Naquela noite, pelo menos, não havia barreira nenhuma.

O público cantava tudo. E quando digo tudo, é tudo mesmo.

Desde os primeiros acordes, o Opinião estava entregue aos argentinos.

Todo mundo pulava, cantava e se entregava ao show como se não houvesse amanhã.

A energia não diminuiu por um minuto sequer.

Desde a primeira música, ficou evidente que o Él Mató já estava com o jogo ganho. Aliás, mais do que isso: estava praticamente jogando em casa.

Em diversos momentos, tive a sensação de estar em La Plata, cidade natal da banda, ou dentro do Vorterix, na Avenida Federico Lacroze, em Buenos Aires.

A diferença é que estávamos em Porto Alegre, diante de um público majoritariamente brasileiro que demonstrava uma paixão genuína pela banda.

E essa conexão entre brasileiros e argentinos não ficou restrita à música.

Em determinado momento, o Opinião foi tomado por um sonoro “Milei, vai tomar no cu!”, seguido pelo já conhecido “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula!”.

O público não estava ali apenas para cantar músicas em espanhol. Havia também uma identificação cultural que ultrapassava o repertório da banda.

No repertório, não faltaram clássicos como “El Tesoro”, “El Magnetismo”, “Más o Menos Bien”, “Chica de Oro”, “Fuego”, “Excalibur”… Não consegui pegar todas, mas foram 18 ou 19 músicas, em praticamente 90 minutos de show e dois bis.

A última música foi “Mi Próximo Movimiento”, uma canção que fala sobre os medos, sobre seguir em frente e sobre a alegria de encarar as coisas.

A vida nunca vai estar perfeita; nunca estará 100% bem. Ainda assim, precisamos permanecer de pé e continuar avançando, mesmo quando isso possa deixar o coração em frangalhos.

Isso é muito importante para mim e me faz pensar em uma música específica do Él Mató, “Más o Menos Bien”, que diz: “Tranquilos, todo va a estar más o menos bien”.

Saí do Opinião visivelmente emocionado, abalado, e precisei de um tempo para assimilar tudo o que eu tinha acabado de viver. Foi um show inquietante, bom pra caramba e que me deu a sensação de me sentir bem e vivo.

Enquanto caminhava, a chuva ia me molhando e eu ia pensando na vida. Não deu tempo de ir para o show da Cachorro Grande na Oktoberfest POA, mas deu para ir à Lancheria do Parque comer um tradicional xis-coração e encerrar a noite em grande estilo.

A vida é feita de som e fúria. Ou, especificamente nesta noite, la vida es puro sonido y furia.

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.