30 anos de Seven – Os Sete Crimes Capitais

30 anos de Seven – Os Sete Crimes Capitais

(Reprodução)

Houve um tempo em que parte importante do cinema hollywoodiano ainda produzia filmes de médio orçamento, com histórias originais e protagonizadas por astros considerados chamarizes de bilheteria. Nessa época, jovens e promissores diretores emplacavam projetos autorais e relativamente ousados, sem se preocuparem em compensar os estúdios com bilheterias bilionárias ou criar franquias que rendessem infinitas continuações ou derivados. Além disso, roteiristas e executivos ainda encaravam os espectadores adultos como uma fatia importante do faturamento, uma vez que, mesmo diante de boas opções no mercado de home vídeo, conferir um filme na sala de cinema ainda era uma experiência valorizada. 

Foi nesse contexto que, no ano de 1995, um então iniciante David Fincher realizou seu segundo longa-metragem, três anos após uma frustrante estreia como diretor no comando do malfadado Alien 3.

Primeira parceria entre Fincher e o astro Brad Pitt, Seven – Os Sete Crimes Capitais foi um legítimo divisor de águas nas carreiras de ambos. Para Fincher, representou a possibilidade de mostrar seu talento na criação de universos ficcionais marcados pelo cinismo e pelo fatalismo; ele voltaria a esses temas em obras como Vidas em Jogo, Clube da Luta e, mais recentemente, O Assassino.   E Pitt teve a oportunidade de se despir da figura do galã romântico que havia incorporado em filmes como Lendas da Paixão e Entrevista com o Vampiro para protagonizar uma história que fala sobre perversão, desesperança e, claro, pecados. Apoiados por um brilhante elenco de apoio, formado por um sensacional Morgan Freeman – em um de seus melhores momentos – , um Kevin Spacey afiado e uma jovem Gwyneth Paltrow, Fincher e Pitt fizeram de Seven um dos grandes suspenses da história do cinema, rivalizando de perto com clássicos como Psicose e O Silêncio dos inocentes.

Trunfo maior de Seven, a direção de Fincher é precisa na exploração do clima de desalento que toma conta dos personagens, ao mesmo tempo em que a atenção a cada detalhe presente nas cenas dos crimes contribui para imersão do espectador, ritmando perfeitamente o andamento da trama, que faz poucas concessões, inclusive no que diz respeito ao polêmico e acachapante final.

Mesmo que o roteirista Andrew Kevin Walker lance mão de alguns clichês para desenvolver sua história, especialmente ao apelar para a velha fórmula da dupla de policiais que, a contragosto, precisam trabalhar juntos para resolver um mistério, a narrativa jamais se torna desinteressante, graças à sensação de crescente desesperança que vai tomando conta dos personagens e contagia o espectador, que compartilha apenas o ponto de vista dos investigadores, sem jamais ter acesso a outras informações.

Por tudo isso, não é de se admirar que Seven permaneça presente na memória dos cinéfilos e especialmente dos admiradores de David Fincher, tornando a comemoração de seus trinta anos de lançamento um evento especial para todos os envolvidos, o que pode ser percebido pelo seu recente relançamento nos cinemas em cópias 4K, um acréscimo muito bem-vindo e que torna ainda melhor uma obra que já era excelente.

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Leonardo Rossano Martins Chaves

Leonardo Rossano Martins Chaves

Formado em Direito e Doutor em Filosofia. Atualmente leciona ambos em cursos de graduação e pós. Cinemaníaco desde tenra idade. Divide seu tempo entre a docência e a busca incessante pelo filme perfeito.