No segundo show de sua série “A Canoa: Paisagens e Conexões”, Ari Colares se apresentou no Centro da Terra – em Perdizes, São Paulo/SP.
Fiz confusão. Eu achei que o show que Felipe Vaqueiro (vocalista e compositor do Tangolo Mangos) faria no Centro da Terra, em São Paulo, apresentando os seus “Ensaios Diamantinos”, seria na segunda-feira, 10/11. Por isso, movimentei uma série de conhecidos para conseguir conferir e resenhar a apresentação. O que deu certo! Mas, com um entrave (vindo no mesmo aviso da permissão): o show seria na terça-feira, 11/11, quando eu não estaria mais na capital paulista.
Porém, a mistura entre prática e lúdica que caracteriza a cidade de São Paulo, me fez ter sorte no azar. Após agradecer e mencionar que na terça-feira não seria possível estar no show, o pessoal do Centro da Terra comentou que, na segunda, eles receberiam o grande percussionista Ari Colares – e que, para essa apresentação, eu também estava convidado. E lá fui eu para o bairro de Perdizes.
Antes, fiz confusão de novo e perdi uma série de ônibus antes de entrar naquele que me levaria – quase atrasado – para lá. E, novamente, sorte no azar: tive a oportunidade de viajar ao lado de Iolanda, uma moradora de Perdizes que, nos seus 78 anos, me tranquilizou e confirmou o caminho que o aplicativo me indicava. “Você vai parar no primeiro ponto da Rua Apinajés e vai virar para a direita, onde na esquina tem uma padaria”, me disse ela. “Toda esquina de São Paulo tem uma padaria”, respondi brincando. “Eu adoro padaria!”, retrucou ela. “Mas nessa eu não vou – e nem você vá! – são uns bolsonaristas”, sentenciou Iolanda. Desci no ponto, virei a esquina na padaria (sem nem ousar chegar perto de entrar) e cheguei no teatro, peguei meu ingresso, esperei o sino tocar – indicando que o público já podia entrar – desci a série de degraus que me levou para baixo do Rio Pinheiros e, enfim, ao teatro do Centro da Terra.

Ari Colares, que já tocou com nomes diversos da música brasileira – de Naná Vasconcelos até Pena Branca & Xavantinho – apresenta em novembro de 2025 uma série de quatro shows autorais, em todas as segundas-feiras do mês, neste mesmo teatro, sempre com convidados e repertórios diferentes. “É sempre outra cor!”, disse ele ao fim do show, quando convidou o público para a próxima semana.
Chamado de “A Canoa: Paisagens e Conexões”, a residência de Ari no Centro da Terra contava, na segunda-feira que pude conferir: 10/11, com ele comandando uma dezena de percussões diversas, das mãos aos pés. A banda era formada por Vanille Goovaerts no violino, Ariane Rodrigues nas flautas, Viviane Pinheiro Roque no piano elétrico e Ricardo Zoyo no contra-baixo fretless. Além deles, o convidado da noite era Ricardo Herz, reconhecido violinista paulista com vasta discografia autoral.
Conforme o próprio Ari comentou, as suas composições apresentadas foram todas inspiradas em ritmos brasileiros que são menos comuns na música instrumental. “Sempre com muita licença poética”, frisou ele, garantindo a referência em tais ritmos em união com a sua própria originalidade.
Tal inspiração se deve a uma pesquisa já longeva de Ari por conhecer “todos os ritmos do Brasil”. Uma vontade sua que, com o tempo, se revelou uma impossibilidade pela tamanha vastidão desse repertório – conforme assumiu ele durante a apresentação.
De qualquer forma, a militância de Colares pela aplicação dos ritmos brasileiros, principalmente interioranos, na sua música – e também nas cenas dos grandes centros e mesmo nas escolas de música, já que ele também é professor – é muito relevante. Membro do grupo A Barca (do qual também participavam figuras como Juçara Marçal e Chico Saraiva – hoje morador de Florianópolis!), Ari fez parte de um movimento in loco proposto pelo grupo: percorrer o caminho de pesquisa de estilos musicais brasileiros que Mário de Andrade fez, indo do Pará até São Paulo, recolhendo e gravando cantos e ritmos populares das regiões por onde passavam. Tal pesquisa pode ser conferida no álbum Trilha, Toada e Trupé, de 2007.
Mesmo na impossibilidade de conhecer todos os ritmos brasileiros, é vasto o número de informações rítmicas e sonoras que a apresentação de Ari nos traz. Enquanto o violino criava belas tensões ruidosas na harmonia, as flautas – as vezes com um sábio auxílio do pedal de whammy – soavam os timbres e as melodias que eram repetidas e desdobradas pelos outros instrumentos: o piano, sombrio e ligeiro; o baixo, redondo e também melódico; as percussões, centrais! Presentes em todas as células da música – mesmo que em silêncio.

Na parte final do show, a presença de Ricardo Herz, adicionando um segundo e virtuoso violino, trouxe Ari para o Berimbau, em apresentação com o grupo todo, e depois para o pandeiro, onde fez um duo de “O Canto da Ema”, clássico de João do Vale, Ayres Viana e Alventino Cavalcante que foi imortalizado na versão de Jackson do Pandeiro.
Com todos os músicos no palco, o show termina com duas músicas que afirmam a tônica diversa e rica da sonoridade dessa apresentação, onde, mesmo presentes, os improvisos não são mais importantes que a cama harmônica mágica que a banda cria para os cantos instrumentais e vocais das lindas melodias das composições.
A busca dos ritmos de um Brasil profundo se conecta com uma ideia “caipira” que Ari Colares afirmou (sonora e verbalmente) no seu show. Apresentando sua banda, ele cita a origem do interior de São Paulo de Ariane e Viviane. Depois, fala da participação que, tanto ele como Ricardo Zoyo, fizeram em álbuns de Pena Branca & Xavantinho. “De onde eu venho, a gente fala porrrta”, diz ele forçando o R. E depois, emenda: “E a Vanille é do interior da França: é caipira também!”. Ao que ela responde brincando: “Lá a gente fala porrrt”, diz ela – numa mistura de francês com Mazzaropi.
“São Paulo é bem caipira” foi uma das frases de Ari que mais me marcou nesse show. Perdido no meio da maior cidade da América Latina, onde seus belos prédios são boa parte de seu roteiro turístico (eu mesmo, visitei vários!), essa afirmação, ao invés de parecer deslocada, me foi facilmente percebida ao olhar sensivelmente a metrópole: cheia de gente de praticamente todos os fundos do mundo.
A multiplicidade que São Paulo causa pelas suas ruas e pelas pessoas que nelas circulam se dá, muitas vezes, no contraditório, no embate e no estranhamento. Mas também resulta no diverso, na coisa-outra, na terceira margem, no original e no dinâmico que se faz possível na prática e lúdica capital paulista – e esse show de Ari Colares me foi uma prova disso.



