Banda de Casinha na Desgosto: Quem tem amigos tem tudo!

Banda de Casinha na Desgosto: Quem tem amigos tem tudo!

(Reprodução)

Quatro bandas, reencontros e um lembrete simples: a cena vive quando ninguém solta a mão de ninguém — nem na pista, nem fora dela.

Até eu havia esquecido como é bom estar com os amigos — sendo amigos nesse nosso campo de batalha pela boa música. A peleia prometia.

Eu e Alexandre Aimbiré, ainda metade dos editores, nos encontramos na Éden (uma choperia não tão distante do Desgosto) para continuar os assuntos da noite anterior: vida, música, política e pequenas vitórias — porque, sem elas, a vida parece nada.

Pouco antes das 19h30, já estávamos lá para assistir a, pelo menos para mim, três bandas inéditas e uma que eu já havia visto algumas vezes — mas nunca em um show completo. Quem sabe não seria o dia? Ou melhor, a noite?

Stela

Com apresentações em diferentes cidades, o segundo volume do projeto em Florianópolis, reunindo quatro bandas, começou cedo. Por volta das 20h10, o quarteto Stela — que nasceu como projeto solo de Vinícius Lavor — subiu ao palco. Logo de cara, chamou atenção a presença da baixista Lygia Mel, com a perna imobilizada, mas isso não diminuiu em nada a intensidade do show: foi pé na porta desde o início.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

O som transita entre o post-hardcore e o indie rock, e esse cartão de visitas rapidamente ajudou a encher o Desgosto.

Entre variações de hardcore melódico e outras influências, a Stela constrói boas melodias e apresenta composições sólidas. Mesmo com a baixista tocando sentada, o quarteto soube envolver o público e deixar claro que, mesmo com pouco mais de dois anos de estrada, é uma banda que precisamos acompanhar de perto — como editores e como público.

Jonabug

Mal terminou a primeira apresentação e outro quarteto já ocupava o palco. Outra pegada, outra história.

Com nuances de metal e hardcore, a banda não aliviou desde o início. A performática vocalista conduz um grupo que parece tocar junto há décadas, apesar da pouca idade — todos muitíssimo mais jovens do que este que vos escreve.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Diferente da banda de abertura, a Jonabug já tem terreno conquistado. O jogo aqui parece ganho, mas a apresentação foi puro luxo, como diria um influencer carioca.

Apesar da camiseta do baterista estampando “Emo Is Love”, a sonoridade flerta bastante com o universo do Smashing Pumpkins. A mistura funciona: riffs pegajosos, mudanças de dinâmica bem executadas e identidade própria.

O quarteto paulistano — Marilia Jonas (voz e guitarra), Dennis Felipe (baixo), Samuel Bernardo (bateria) e Thales Leite (guitarra) — passeia entre shoegaze, pitadas de emo e letras bem construídas, tanto em inglês quanto em português.

E, se eu fosse você, já começava a caçar o vinil Três Tigres Tristes, lançado pelos selos Black Dog Alternative, Midwest Records e Undershows BR no último dia 18 de fevereiro.

Puro luxo. Considerado por muitos um dos grandes discos de 2025, tem tudo para virar peça de colecionador em pouco tempo.

Centroleste Autopeças

Aqui cabe um parêntese GIGANTE.

Lembram da banda mencionada no início do texto, que eu já tinha visto antes? Pois é. Em todos esses anos nessa indústria vital, nunca consegui assistir a um show deles sem algum percalço: corda arrebentando, amplificador queimando, apresentação interrompida…

Mas dessa vez foi diferente.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

O quarteto de Florianópolis subiu ao palco seguro, potente e preciso. Despejou energia sem tropeços e entregou um show coeso, pesado e finalmente livre de qualquer contratempo.

É para glorificar de pé, caralho!

Interregno

A partir do terceiro show, ganhamos a companhia de mais um membro do site: o digníssimo Frederico Dilullo, verdadeira máquina de escrever humana.

E, finalmente, estávamos quase completos — faltou apenas o não menos importante Catatau, que ficou em São Paulo — para assistir ao fenômeno seguinte.

Sorosoro

Depois da potência da Centroleste Autopeças, parecia difícil subir o nível. Mas o quinteto Sorosoro entrou em cena com energia absurda, como se todos estivessem conectados a alguma força cósmica. Não sei o que tem na água de Blumenau.

Talvez culpa da Luiza, que já havia tecido grandes elogios e ajudou a desmontar nossas caras fechadas antes do show.

Quando um guitarrista entra em cena usando arco para tocar guitarra, só existem dois caminhos: ou dá muito errado, ou dá muito certo. E deu certo.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

O vocalista Pedro Museka tem presença. Cara de jovem sofrido, postura indie e carisma natural de frontman. A banda toca com impressionante coesão. Há ecos de indie rock clássico, eflúvios de Los Hermanos e uma entrega que parece arrebentar a porta logo na primeira música.

Com momentos psicodélicos e um pé no southern rock, foi facilmente uma das bandas que mais me impressionaram nos últimos meses. Então, obrigado, Luiza.

Soar como Wilco, com tons confessionais e climáticos, foi a forma perfeita de encerrar uma noite que terminou antes das doze badaladas.

E como é bom estar em um rolê onde músicos prestigiam outros músicos. Um verdadeiro who’s who da cena local: gente da Tapete Tapete, Dirty Grills, Cranqz, e Exclusive Os Cabides apareceu por lá, além do Carmino, vindo diretamente da distante Guabiruba — e, se esqueci alguém, me perdoem.

Agradecimentos

Ao Desgosto, pela acolhida de sempre.
Ao Gustavo, que faz os corres da casa acontecerem.
À Bia, pela parceria e por confiar na gente.
E às funcionárias, sempre com um sorriso no rosto.

Porque, no fim das contas, show sem amigos não é show de verdade.

Fellas, vocês são demais.

Luciano Vitor

Luciano Vitor

Formado em Direito, frequentador de shows de bandas e artistas independentes, colaborou em diversos veículos, como Dynamite, Laboratório Pop, Revista Decibélica, Jornal Notícias do Dia, entre outros. Botafoguense moderado, é carioca radicado em Florianópolis há mais de 20 anos.