Sem calçados, Tagore usava as meias para deslizar no palco da Bugio Centro, em Florianópolis/SC, na quinta-feira do dia 27/11/25. Ao seu redor, deslizando arranjos precisos em grooves e timbres, nomes reconhecidos da cena local formavam a banda do pernambucano para essa apresentação: Mauro Fontoura (guitarra e backvocals), Samuel Fontoura (bateria) – os conhecidos irmãos da Muñoz -, e Jenks (no baixo), membro da banda Nouvella.
O show começa com “Espaço Tempo”, canção que fecha o álbum Maya, lançado em 2019. A levada lenta da música serviu para ir chamando o público pra dentro do espaço do show e, enquanto cigarros se apagavam do lado de fora e os espectadores se aconchegavam dentro da Bugio, a banda já mostrava sua solidez e anunciava o que era bem previsível: aí vem somzera.

Na sequência, o hit “Mudo”, do álbum Pineal, de 2016, acendeu o público. A contemplação e o acomodamento da primeira faixa dão lugar à coros, balanços de corpos, mãos para o alto e uma energia contagiante que se seguiu até o fim do show.
Energia essa guiada, principalmente, pelas canções do álbum Maya: das 15 apresentadas no show, sete eram desse disco. Depois de “Mudo”, a fila de “Areias de Jeri” com “Maya” (faixa-título do álbum) foi visivelmente contagiante: quando finalizou a sequência com a frase “dá um trabalho danado”, Tagore se empolga e literalmente comemora a recepção do público. Após isso, cada canção que terminava parecia um gol marcado pelo vocalista-atacante.
Também do Maya, a canção “Tatu” veio acompanhada de uma trívia contada por Tagore: a de que Tom Zé havia sido convidado para gravar a faixa com ele – e inclusive aceitado o convite! Mas que, em cima da hora, deu o bolo e, infelizmente, ficamos sem essa parceria. De qualquer maneira, isso não prejudicou o sucesso da canção – e o público da Bugio provou isso.

O show também passeou por músicas do mais recente trabalho do artista, o álbum Barra de Jangada, lançado no ano passado. Além da faixa-título, estiveram presentes no setlist “Paixão Revirada”, “Amor Perfume” e “Sargaços”, que equilibraram a psicodelia das demais canções com esse lado mais popular e dançante que Tagore também domina muito bem, assim como a banda que o acompanhou nesta noite.
Próximo ao fim do show, o artista comentou que seu álbum Pineal irá a comemorar 10 anos em 2026 e que, devido a isso, ele já sonda uma possível turnê comemorativa. Nisso, ele enfileira duas canções do álbum: “Reflexo” e o hit-faixa-título, que foi cantado ali por dezenas de pessoas. “Eu prefiro ver as coisas com calma / Ao invés de só correr”.

A última canção do show foi “Anjo de Fogo”, clássico de Alceu Valença que ainda contou com a participação de Chico Abreu (Skrotes, Los Desterros, La Pompette, etc) assumindo o baixo e Arthur Rodrigues (produtor do selo Cena Cerrado, de Uberlândia/MG) cantando junto com Tagore. Essa faixa, apresentada de maneira energética neste show, serviu como um exame de DNA metafórico para provar: esse cara é um filho legítimo da psicodelia pernambucana dos anos 70.
Com casa cheia em plena quinta-feira, palco e público se misturaram na apresentação. Olhando a plateia, era visível o movimento balançado que acompanhava o ritmo das canções. Olhando para o palco, Tagore parecia sentir na pele cada parte do arranjo enquanto cantava, tocava e dançava do seu jeito torto.
Em certa altura, ele falou: “Quem faz o show é o público, se não é ensaio”. Sendo assim, não há dúvida: esse foi um grande show.

Setlist:
- “Espaço Tempo”
- “Mudo”
- “Areias de Jeri”
- “Maya”
- “Amor Perfume”
- “Tatu”
- “Capricorniana”
- “Barra de Jangada”
- “Sargaços”
- “Olho Dela”
- “Reflexo”
- “Pineal”
- “Drama”
- “Paixão Revirada”
- “Anjo de Fogo” (Alceu Valença)



