Coração Selvagem: Matanza Ritual no Carioca Club

Coração Selvagem: Matanza Ritual no Carioca Club

(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Caos, carisma e catarse marcam o show da Matanza Ritual no Carioca Club, em SP.

Descer na Estação Faria Lima numa sexta-feira virou algo como um ritual pra mim. A caminhada pelo Largo da Batata já esvaziado à noite passa pela iluminadíssima flagship da Vans, estacionamentos e vendedores ambulantes. Antes de entrar para o Carioca Club, fiz uma tradicional pausa estratégica na pizzaria ao lado. Normalmente, pediria uma Coca-Cola, mas um show da Matanza Ritual numa sexta pós-feriado merecia uma cerveja gelada. No balcão, esperando minha fatia de pizza de calabresa com queijo, percebo passando atrás de mim uma figura absolutamente caracterizada como Asajj Ventress, a Sith de Star Wars: The Clone Wars.

Sim. Eu sou um nerdola. E aquela noite já estava excelente antes mesmo de começar.

O Carioca estava lotado. Um mar monocromático de preto: camisetas de bandas metal de todas as bandas e subgêneros possíveis, cabelos compridos, coturnos, meias arrastão e várias moças com chifres, uma lembrança óbvia ao álbum Santa Madre Cassino.

A abertura ficou com a Throw Me to the Wolves, uma daquelas bandas que entram no palco com a confiança de quem sabe exatamente o que está fazendo. Metal sincero, sem rodeios, carregado por uma performance energética e contagiante. Os caras são veteranos da cena e acabaram de voltar de uma turnê pela Europa com o Hammerfall — e dava pra sentir isso no palco. Tocavam pesados, mas sorrindo; técnicos, mas soltos. Chegando ao final da apresentação, houve um pequeno imprevisto — o banquinho da bateria resolveu atrapalhar “An Hour of Wolves”, música inspirada por O Senhor dos Anéis. A simples menção a Tolkien já tinha provocado um grito caloroso do público; quando a música precisou ser reiniciada, o grito veio ainda mais forte.

Um erro técnico que virou anedota, virando energia ao invés de atrapalhar.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

O encerramento contou com a participação de Marcelo Pompeu, vocalista da Korzus, surgindo no palco para dividir os vocais. A reação do público foi instantânea: um rugido de reconhecimento.

A cortina desceu enquanto o palco era desmontado e montado ela subiu enquanto a plateia puxava o tradicional e carinhosamente agressivo coro de “Ei, Jimmy, vai tomar no cu!”. A entrada da banda foi de “Also sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, eternizada em 2001: Uma Odisseia no Espaço. Assim que soou o primeiro acorde, já era caos: antes mesmo do inconfundível Jimmy London surgir, o guitarrista Antônio Araújo, que também é guitarrista da Korzus, já sinalizava para a plateia abrir uma roda.

Pedido que foi prontamente atendido.

Daí em diante, foi um soco atrás do outro. Jimmy não parou um segundo: caminhava, dançava, mostrava a língua, atiçava o público. Em muitos momentos, o coro das vozes cobria a dele, e o som estava ALTO. Ele dava pequenas introduções antes de cada faixa, sempre recheadas de ironia. Num certo momento, comentou que quem mandava ele tomar no cu não era seu amiguinho — arrancando risadas, gritos e mais desejos carinhosos que ele tomasse naquele lugar.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

No baixo, Renan Campos, guitarrista da Hatefulmurder, assumiu o posto de Felipe Andreoli, entregando uma performance precisa e pesada. O repertório alternou músicas do novo A Vingança é Meu Motor — como “Lei do Mínimo Esforço” — com clássicos absolutos como “Pé na Porta, Soco na Cara” e “Tempo Ruim”. Independentemente da era, o público respondia com a mesma fúria feliz.

E então veio o detalhe mais pessoal da noite: a moça caracterizada como Sith — a mesma que eu tinha visto na pizzaria — foi chamada ao palco por Jimmy, que disse que aquele tipo de dedicação merecia destaque. A plateia vibrou. Foi um momento pequeno, mas simbólico, quase cinematográfico dentro da noite turbulenta.

Foi uma noite excelente. Um show direto, suado, barulhento e envolvente, exatamente o que se espera da Matanza Ritual. Uma sexta-feira perfeita: pizza, pista, pogo, potência. Um público que cantava em coro, corria em roda e se reconhecia mutuamente naquele caos. Uma daquelas experiências que misturam o pessoal e o coletivo. Foi uma daquelas noites que me fez lembrar por que sigo voltando para shows, bares e para o coração barulhento desta cidade.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.