Em casa com Mike Kinsella: Owen no Jai Club

Em casa com Mike Kinsella: Owen no Jai Club

(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Show intimista de Mike Kinsella em São Paulo destaca violão preciso, afinações infinitas e setlist emocionante no Jai Club.

Tudo parecia estar numa escala menor no Jai Club nesta quinta. O palco era pequeno, luz suave, gente chegando devagar, aquela expectativa tranquila de quem sabe que vai ver algo íntimo, quase caseiro. Cyro Sampaio subiu ao palco, só ele e o violão, e começou a noite do jeito mais honesto possível: tocando as canções “mais tristes” da carreira, como ele mesmo avisou, meio brincando, meio confessando. Entre essas, encaixou um cover inesperado de “Nude”, do Radiohead, que deixou o ambiente suspenso por um instante, e depois outro ainda mais improvável — “Telegrama”, da Exaltasamba — vindo direto do seu projeto Exaltacyro. E ali ficou claro que, no fim, música boa simplesmente funciona; não precisa pedir licença, não precisa caber em gaveta nenhuma.

Cyro admitiu que estava nervoso antes de subir ao palco: abrir para um dos músicos que ele mais admira não é pouca coisa. Mas a entrega dele ali em cima deixou claro que estava exatamente onde precisava estar.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Mike Kinsella estava circulando pelos cantos antes do show, e esbarrei com ele quase por acaso. Joguei o tradicional “quebra a perna”, que se diz pra não atrair azar, e ele devolveu um “I’ll break your legs if you’re not careful!” com aquele humor torto que acompanharia toda a apresentação. Quando finalmente subiu ao palco, avisou logo que faria muitas pausas para afinar o violão — e cumpriu a promessa com rigor quase científico. Era pausa, piada, pausa de novo; cada música pedia uma afinação diferente, e ele ia ajustando tudo ali mesmo, como quem troca de idioma no meio da conversa. Em certo momento, comentou que “Mount Cleverest” era “a música mais estúpida que já tinha escrito”, e ainda disse que parecia algo que o Robert Plant teria apresentado para o Led Zeppelin e que o resto da banda teria rejeitado sem pensar duas vezes.

E como se o universo tivesse decidido reforçar o caráter improvisado da coisa toda, uma corda estourou logo depois da música. Sem cerimônia, Mike pegou o violão de Cyro emprestado, dedilhou duas notas e comemorou: “It works!”. E realmente funcionou. Ele seguiu ali, sem nenhuma pressa, tocando, brincando, afinando — sempre afinando — e abrindo espaço para pequenas anedotas que davam ao show cara de ensaio aberto, daqueles em que o artista esquece que existe divisão entre palco e plateia.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

No meio disso tudo, tinha também o fator técnico — porque, apesar do tom despreocupado, Mike Kinsella é daqueles músicos que fazem o difícil parecer brincadeira. Cada música exigia uma afinação específica, então ele mudava tudo o tempo todo: tarraxas subindo e descendo, pequenas checagens, aquela precisão quase irritantemente natural de quem domina o instrumento até no improviso. E, entre uma mudança e outra, entregava dedilhados impecáveis, variações rítmicas que surgiam como reflexo e uma fluidez desconcertante entre força e delicadeza. Mais tarde, no fumódromo, trombei com o Cyro e a companheira dele, e ficamos ali, meio incrédulos, comentando justamente isso: como o cara parecia tocar sem esforço algum, como se estivesse só aquecendo — e mesmo assim desmontava a gente. “Ele é um monstro!”, Cyro exclamou, rindo e balançando a cabeça, ainda meio embasbacado com o que tinha acabado de ver.

Entre as músicas de seu alter ego solo, Owen, tocou algumas músicas da American Football, sempre com um pé no deboche. Entre acordes de “Never Meant”, comentou rindo que suas partes eram as mais sem graça da faixa. Não adiantou: todo mundo cantou junto, e por alguns segundos o show virou coro comunitário. No fim da apresentação, perguntou se alguém tinha algum pedido. Vieram dezenas — quase todas da American Football — e a resposta dele foi sempre a mesma: “não sei tocar”. A galera ria, incrédula, como se alguém tivesse esquecido a própria identidade. Dois caras se arriscaram e subiram ao palco para tentar tocar enquanto Mike improvisava um número de stand-up, um pequeno caos organizado que deu contorno definitivo à noite.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

A despedida veio de um jeito tão Mike quanto possível: ele pegou o celular, aproximou o falante do microfone e mostrou uma demo de “Girls Just Want to Have Fun”, da Cyndi Lauper, reimaginada como se fosse “I Know It’s Over”, dos Smiths. Na outra mão, segurava uma caipirinha que havia ganhado momentos antes. A música soava crua, estranha, bonita — e combinava perfeitamente com aquele clima de show que não parecia show, mas encontro.

Foi assim que a noite terminou: com a sensação de que vimos algo despretensioso e sincero, quase acidental, mas cheio de pequenos brilhos espalhados pelo caminho. Um daqueles raros momentos em que o artista desmonta qualquer cerimonial e oferece só o que tem — o violão, a voz, a graça meio torta e a vontade de dividir uns minutos de verdade com quem estava ali. E eu, com um sorriso enorme no rosto, fui andando lentamente, curtindo a noite fria com a versão dele de “Never Meant” no fone.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.