Noite no Bugio expõe contrastes da cena independente: enquanto Exclusive Os Cabides atraiu a casa cheia, a Bike apresentou um dos melhores shows do ano para apenas algumas dezenas de espectadores.
Na última sexta-feira, o Bugio recebeu uma noite que sintetiza bem o estado atual da música independente em Santa Catarina: talento de sobra, público instável e dois shows que, cada um à sua maneira, expuseram contrastes fortes entre expectativa e presença real. Exclusive Os Cabides e a paulistana Bike dividiram a noite — mas não exatamente o mesmo público — e isso acendeu reflexões importantes sobre cena, circulação e política cultural.
Exclusive Os Cabides: o nonsense refinado que lotou a Bugio

Talvez Exclusive Os Cabides seja uma das poucas bandas de Florianópolis que eu ainda não tinha conseguido assistir ao vivo — até aquela sexta-feira, 14. O quinteto evoca todo o nonsense das bandas das décadas de 80/90 do século passado, trazendo esse embate de décadas atrás para o momento atual, numa fina e escancarada ironia, com quebras de ritmo e um figurino re-visitivo no palco.
Exclusive é música para ver e ouvir — com deliciosas pitadas (nunca imaginei escrever isso de uma banda recente) de fusion e jazz.
Mas não vamos esquecer: eles são uma banda que preza pela qualidade dos shows. É boa? Sim, quando fica no niilismo musical ou no rock nonsense — ou seja, em 99% do show.
E, como diria Itamar Assumpção: “Por que não pensei nisso antes?”
Após um show acalorado da Exclusive Os Cabides, rolou aquela tradicional troca de palco. Pausa rápida para um chopp, um bate-papo com alguns membros da Exclusive, e retorno para assistir ao show da Bike.
Bike: psicodelia irretocável diante de um público inexplicavelmente ausente

O primeiro impacto no início do show da Bike foi o absurdo esvaziamento de público. Se no show da Exclusive Os Cabides o local estava literalmente tomado do primeiro ao último minuto, o que vimos na Bike foi estranho. A banda fez um show irretocável, mas o público — sempre afeito a novidades — parecia se resumir aos 30, 40 presentes no local.
Isso me fez refletir sobre música e política. Ninguém é obrigado a assistir a um show, tendo pago ou não, mas a cadeia de bandas independentes é o reflexo do público que frequenta os shows.
Se hoje temos muitas bandas locais em palcos importantes do Rio de Janeiro e São Paulo, muito se deve não apenas ao trabalho das bandas catarinenses, mas também às conexões, indicações e diversos contextos que trazem bandas de fora para cá e levam bandas daqui para o Sudeste.
Mas, inexplicavelmente, 70% do público não assistiu à apresentação da Bike. Perderam uma catarse sonora — um show que transcendeu o conceito de show em si.
Uma apresentação irretocável, na qual a psicodelia inundou o ambiente e ainda contou com a participação do cantor pernambucano Tagore (outro legítimo representante da psicodelia nacional recente), que cantou junto com a banda “A Montanha Sagrada”, do álbum Em Busca da Viagem Eterna.
Com um repertório quase todo focado em Noise Meditations, álbum lançado este ano pelo próprio selo da banda, o Bike Records, o quarteto foi do looping sonoro eterno à entrega física e lisérgica no palco da Bugio. Com uma iluminação sensacional (obrigado, Emilio), a Bike entregou mais do que o esperado e, seguramente, é um dos melhores shows nacionais atualmente.
Agradecimentos ao Emilio e à equipe da Bugio Centro pela acolhida, à família Bike pela entrega impecável no palco e à família Exclusive pela parceria e energia que fazem a cena independente continuar pulsando.



