Coberturas

Foo Fighters no Allianz Parque

Antes do Foo Fighers entrar no palco eu indaguei à minha esposa, que estava comigo nas arquibancadas no Allianz Parque na terça-feira, dia 27 de fevereiro, se o palco era grande o suficiente para comportar o ego do Dave Grohl. Apesar de gostar muito da banda e eles terem sido seminais na minha formação musical quando adolescente, fui aos poucos cansando na egomania e da própria personalidade do ex-Nirvana. Sempre achei que ele devia ser um sujeito gente fina, mas aos poucos fui percebendo ele como aquele “amigão” que sempre precisa ser o centro das atenções, mesmo quando se trata do velório de outra pessoa.

Minha esposa me deu um soco no ombro e eu tentei me concentrar na música e no show e esquecer esses pormenores.

Dave entrou correndo para dentro do palco e o grito do público quase engoliu os primeiros acordes de “Run”, primeiro single do último álbum, “Concrete and Gold”. Na verdade, a banda entrou em palco para chutar todos os traseiros do mundo de uma vez só, tocando logo na primeira meia hora de show praticamente só pedradas. Depois de “Run”, seguiram sem interrupções com “All My Life”, “Learn to Fly” e “The Pretender”. Ao final desta última, a banda parou e foi aplaudida por quase três minutos. Poucas vezes na minha vida vi tamanha demonstração de êxtase de um público. No início pareceu exagerado, meio overkill, meter tantas músicas preferidas do grande público em sequência logo no começo do show, mas logo eu percebi que ainda restavam muitos momentos para o resto da noite.

Dave Grohl no geral é um frontman como poucos, às vezes parece impossível ele terminar um verso sem gritar ou mesmo não nos chamar de “motherfuckers”. O resto da banda, com exceção do baterista Taylor Hawkins, às vezes parece que nem está lá e apareceram pouquíssimas vezes no telão. O tecladista Rami Jaffee, por exemplo, só apareceu quando estava sendo apresentado tocando “Miss You” dos Rolling Stones. O guitarrista Pat Smear só repetia a mesma expressão facial e poderia facilmente ser substituído por um vídeo. O mesmo não pode ser dito do irreconhecível Chris Shiflett, com uma barba farta e uma faixa à Jimi Hendrix no cabelo, mas nem ele, nem o baixista Nate Mendell eram os protagonistas da noite.

O show é extremamente bem ensaiado e o setlist foi praticamente igual ao tocado no Rio de Janeiro poucos dias antes, mas o que é incrível é a maestria da banda e, principalmente, de Dave Grohl em fazer tudo parecer improvisado. A sensação do público é de que o que eles estão vendo é um evento inédito. Nunca antes tocaram daquela forma, nunca antes aquelas piadas foram ditas e nós realmente éramos o público mais barulhento para quem eles haviam tocado em muito tempo. A performance toda foi impecável, digna de uma banda no auge. Mesmo que os dias de glória deles possam ter passado há bastante tempo, o Foo Fighters que se apresentou naquela noite era uma banda em sua melhor forma. Não houve nenhum momento em que a performance pareceu burocrática, mesmo quando o tal rapaz inventou de fazer um pedido de casamento no palco.

Tenho um pouco de inveja das pessoas que foram no dia seguinte e viram um moleque aleatório tocar bateria enquanto Taylor e Dave cantavam “Under Pressure” do Queen.

Ao meu lado havia uma moça que parecia um pouco mais nova que eu que cantou todas as músicas, se emocionou e toda vez que Dave Grohl falava com o público, para ela era como se ele estivesse falando diretamente com ela. Ela levou as mãos ao rosto e chorou um pouquinho quando Dave tocou “Big Me”, primeiro sozinho, depois acompanhado pelo resto da banda. Houveram vários momentos dedicados à pessoas como eu e ela, fãs “old school” da banda, como Dave mesmo nos chamou. Pessoas que viram o “ex-baterista do Nirvana” virar “o vocalista do Foo Fighters”, que acompanhamos a banda desde os primórdios. Por uma noite, esquecemos que Dave Grohl é um egomaníaco que precisa fazer o mundo girar em torno dele e ouvimos a música.

Por uma noite, lembramos do que realmente importa.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.

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