Em sua terceira passagem por terras brasileiras, o rapper Kendrick Lamar encontra um Allianz Parque quase lotado. Seu primeiro show no Brasil fora do contexto de um festival com outros artistas impressiona. Não pela estrutura do palco, que conta com uma econômica pirotecnia, três telões e uma dúzia de dançarinos, mas pela habilidade com que o artista conecta a cultura das ruas de Compton, Califórnia, ao espírito do público brasileiro.
Em um setlist de quase 30 de seus maiores sucessos, o rapper mostrou, no palco, o mesmo dinamismo e fôlego vistos em seu show no intervalo do Super Bowl no início deste ano. Do fã fiel, que o apoia desde os primórdios da carreira (falo das mixtapes), ao fã que entrou no trem após a famigerada briga pública com o rapper canadense Drake, todos puderam ver com os próprios olhos a genialidade que rendeu a Kendrick não apenas múltiplos Grammys, mas também um Pulitzer, provando que o rap não fica restrito a caixinhas.
Ao longo das duas horas em que incendiou o estádio na Barra Funda, seus fãs viveram um espectro de emoções, relembrando “m.A.A.d city”, dançando ao som de “tv off”, refletindo com “man at the garden”, pulando ao som de “family ties” e vibrando com “Not Like Us”. Mas, acima de tudo, os espectadores tiveram a oportunidade de testemunhar a força do comentário social que tem sido a tônica da arte de Kendrick desde o início: as drogas, o tráfico, a violência policial, entre outros elementos comuns das periferias do continente americano.
Deixando de lado a dura realidade que nasce da desigualdade social, Kendrick também convida o público a refletir sobre elementos universais da experiência humana: a luta para se despir do ego, o orgulho, o ódio, e a dificuldade em levar uma vida de retidão quando as pressões sociais e culturais têm o poder de nos desviar desse caminho.
Kendrick já não tem mais nada a provar, e no entanto, entrega tudo no palco e nos torna parte de uma experiência que transcende o idioma e as diferenças culturais: o rap como ferramenta de expressão e de transformação, tanto da cultura quanto do ser.



