O Grande Circo Bélico: Kanonenfieber no Carioca Club

O Grande Circo Bélico: Kanonenfieber no Carioca Club

(Reprodução)

Um domingo em que o Kanonenfieber provou que a interessância do Black Metal segue longe de se esgotar

Entre a vastidão de subgêneros do nosso querido Heavy Metal, o Black Metal é um dos que mais abriu espaço para a rara, mas — ou, por isso mesmo — bem-quista interessância. Uma das razões para isso é evidente: a prática da música extrema, ao mesmo tempo em que cria novas convenções, liberta o praticante de outras. No caso do BM, o gênero se desvinculou de algumas das tendências mais regressivas que o caracterizavam na dita “primeira onda” dos anos 80, com a chegada das bandas norueguesas no esquema e sua radicalmente nova abordagem.

Qual seria a dominante nessa nova abordagem? Eu apostaria que a tristeza.

O Black Metal é um gênero que só funciona se estruturalmente perpassado pelos signos da tristeza. Nisso, dialoga mais com o post-punk e o gótico que com seus antecedentes imediatos, o death metal e o pizza thrash. Em grandes shows de Black Metal que estive (entre outros, do Mayhem, Emperor e do Watain — espero que eles venham ao Brasil na atual turnê de despedida), a atmosfera era quase indistinta do que pude notar nos registros antigos do Christian Death, por exemplo, ou do Skinny Puppy era-VIVIsectVI: espetáculos de um barroco popular em que a aparente ausência de centro — i.e., Deus — significa a ampla adornaria sonora e visual num movimento perpétuo e descendente. Um melodrama tremendo; do rock gótico e suas variantes eletrônicas (electro-industrial, aggrotech), o Black Metal herdou seu gosto por esse pós-barroquismo melodramático. É como se ambos realizassem um mesmo projeto, realizado de maneira diferente a partir de diferentes experiências geográficas.

Adentramos, aí, o terreno do pensamento perigoso. Mas essas são músicas que se pretendem perigosas e, em muitos casos, provaram-se perigosas, de fato, más influências: o saldo dessa tristeza, desse isolamento, elaborados sob a lente algo sofisticada de um barroco sem centro — inclusive moral — faz erigir nos internos — via de regra nós, capengas — um senso de elitismo. Porque nós sacamos o mundo que pôs a necessidade de atrocidades que põe no mundo a necessidade de nossa música. E vocês, wimps, tomando litrão e girando o braço na roda, chutando o ar e o queixo do colega ao lado, usando bermuda.

Eu nunca rodei na vida. É mole? Eu não uso bermuda.

O estouro do Marilyn Manson trouxe, quem diria, algo ruim para nossa duplinha rock gótico/BM. Congregando conosco em nossa superioridade estética sobre os wimps, em nosso cabelo escorrido e roupas pretas, e com um senso de transgressão que o tempo provou referir-se à sua necessidade interna de externalização duma violência até então latente, o Manson confundiu as coisas. A coisa (o tchans, como diziam os cozinheiros do Top Chef, ex-reality culinário da Rede Record de Televisão) do BM é justamente o fato da latência. Debussy e Dead congregam juntos no céu dos contemplativos: o movimento não encontra fonte para liberar — cortar — suas ondas. Sem dinâmica, um zênite sem nadir.

O que seria, então, Kanonenfieber (transição smooth, né, pega)?

No mesmo dia do show do Mayhem no Vip Station, fui ao Carioca cobrir a estreia dos soldados alemães (de 1914, relaxa). O Grande Circo Bélico. A cinco minutos do show, cancionetas de guerra começam a soar no PA. Cancionetas antigas, aquele som gomaláquico abafado, só médio. A alguns passos de mim, um grupo de fotógrafos velhos de guerra relembrava com romance os antigos feitos de antigos shows. Pensei em perguntá-los como eu ligava o automático da máquina que meu amigo Lukinhas, tão gentilmente, emprestara-me. Li no Reddit que o modo automático é o melhor modo. Mas os dinossauros não me pareciam muito amigáveis — a máquina de um deles mexia sozinha, crescia de dentro pra fora e então pra dentro de novo —; além do mais, já haviam notado que sou noob.

Desisti do plano: um artesão tem seus segredos. Fiquei tentando puxar a lente da máquina pra fora, pra ver se começava a mexer. Nesse ponto, as cancionetas tinham ficado mais altas; pude notar nelas algumas palavras de alemão. Surgia um furor no público. Um tiozão dissera a seu broto que vira os membros da banda mais cedo, saindo da van pra entrar no Carioca; não são velhos nem novos. Um é gordo, mas não muito. Não são altos nem baixos. Ao lado dele, o Rodrigo tirava foto com sua máquina, que também mexia sozinha. “Luccão?”, ele disse. Disse que cresci a barba e cortei o cabelo, ambas verdades. Simpatizo com ele. Ele tira fotos de shows de metal e tirou fotos em todo show de Black Metal que estive desde o Batushka, em 2019. Foi lindo, o Batushka. Pena que nunca mais volta. Gosto das fotos dele. Perguntei como fazia pra minha máquina mexer sozinha também, mas ele disse não ser possível, por alguma tecnicidade na qual não prestei muita atenção. Depois, botou a máquina no automático. “É só apontar e apertar?”, perguntei. “É”, ele disse.

Foi quando o público do Carioca entrou em parafuso: o primeiro soldado, o da guitarra, subiu no palco. Corri pra minha guerra profissional junto dos dinossauros. Consegui, após muita luta, um espaço na frente desse mesmo soldado, o da guitarra, o telequeiro (mas a teleca tinha humbucker). Fiquei com a cara bem na frente de um dos PAs e, enquanto eu tirava fotos e aprendia a dar zoom, ele posava: botou o pé no retorno; depois, no primeiro dos muitos breakdowns da noite, jogou a coluna pra trás e olhou pro teto. Ficou assim uma cotinha, pra dar tempo de focar bem. Foi mó legal: um telequeiro, um cavalheiro.

O PA na cara foi legal também; deu vontade de ficar lá o show inteiro, sentindo o som na cara fritando meus sinos no ritmo do bumbo duplo; “isso podia curar sinusite, né?”, pensei por um instante. Depois pensei no causo do meu ex-professor de áudio Peninha, figurassa e meio surdo pelas décadas de rock: ele via TV tão alto que um dia a mulher dele, enlouquecida, pediu pra abaixar. “Mas essa TV nem tem pitch shift”, ele disse. O vocalista ali tinha um pouco. Ele se chama Noise. Ele atirou na gente com uma bazuca de ozônio, uma hora. Ele também tirou uma foto do bolso e, de joelhos, beijou-a. Seus colegas de banda abraçavam-se ao fim das canções. Pergunto-me às vezes da necessidade de tantos breakdowns. Seria o novo solo de guitarra? Um expediente mais supressivo, mas mais democrático, ao suprimir a instância do guitarrista sendo fodão enquanto o resto da banda segura a onda? Senti saudade dos solos de guitarra — I’m kind of a 90’s boy, you know. Também senti falta duma certa negatividade, que no caso do Kanonenfieber seria uma postura específica perante a guerra que o Kanonenfieber tenta a qualquer custo evitar.

Guerra é zoado, pra deixar claro, e ser anti-guerra é meio que ser normal. Mas se nosso léxico, nossos modos, nossos gadgets, nossa sexualidade, nosso pop são funcionários de um ministério corporativo de guerra permanente, a postura anti-guerra deve complexificar-se. Uma prescrição? Não sei. Mas a coisa do negativo, quando da abordagem estética de assuntos como a guerra, passa a demonstrar uma necessidade de internalização. Coisa engraçada, tratando-se de Black Metal: não seria este o gênero da tristeza, da desolação, da afirmação da vida possível apenas num mundo radicalmente diverso do nosso? O negativo é estruturante no Black Metal e se dá em todas as suas instâncias: da gravação às paredes de som, da ladainha elitista às pinturas faciais cadavéricas, nas quais a putrefação é instância de um futuro presentificado, um aceno direto da morte, única possibilidade de acesso ao mundo real.

Nietzsche roda que roda no caixão: tais não são suas pontadas ao cristianismo?

Não há Black Metal sem esse niilismo cristão; no campo do rock, não há afirmação maior ao cristianismo no que este tem de mais militante. Logo, para se fazer anti-guerra no Black Metal, é só fazer Black Metal. Pois este carrega em sua estrutura a feiúra da guerra, não suas ideologizações de elevação moral. A vulnerabilidade de ver-se sujeito — e objeto — de uma violência maior do que você. Dessa possibilidade, extraem-se certas possibilidades de beleza: pense o riff de Transylvanian Hunger, nas primeiras demos do Paysage d’Hiver, na hipnose narcótica de Dunkelheit — o tecladinho acentuando a tônica. No grito agudo, afogado na parede de ruído. No acorde menor, a tremular. Pro Kanonenfieber, ser anti-guerra é muito daora, e o espetáculo do Kanonenfieber no Carioca, de fato, arrebentou a boca do balão. Um Resgate do Soldado Ryan: a guerra enquanto triunfo da exuberância; em meio às explosões iradas, a prescrição: guerra é paia. O saldo geral é dúbio; é um rolê divertido, por vezes engraçado (ele atirou na gente com uma bazuca de ozônio). Mas chega lá, enquanto Black Metal? Enquanto comentário a respeito da guerra? Sendo que esta exerce dominância estrutural na relação com aquela?

Fora isso, o som tava bem mixado, dava pra ouvir tudo, uma raridade em shows de metal; só podia ser mais alto, e o play, competente. Ia ser top no dia do metal do Rock in Rio.

O público chapou.

Lucca Seixas

Lucca Seixas

Lucca Seixas escreve dos confins do ABC paulista.