ORUÃ & ruído/mm no Camaleão Cultural: um encontro de titãs em Curitiba

ORUÃ & ruído/mm no Camaleão Cultural: um encontro de titãs em Curitiba

(Luciano Vitor/Under Floripa)

Duas das bandas mais singulares da música independente se encontraram em Curitiba para uma noite de instrumental, experimentação e muita música fora da curva.

Nada mais apropriado que uma banda virtuosa se encontrar com outra. O risco de errar é mínimo.

Curitiba não estava muito propícia a shows naquela quinta-feira, 13 de agosto. Mas, apesar do clima quase chuvoso e não tão frio, o Camaleão Cultural recebeu um ótimo público e proporcionou experiências arrebatadoras.

Presente na Rua São Francisco, nº 213, Centro, o bar tem uma carta de bebidas bacana, chopes, cervejas e petiscos, além de guardar uma acústica absurda.

Não à toa, o som estava absurdamente limpo!

Mas vamos ao que interessa!

ruído/mm: O além do notável!

ORUÃ & ruído/mm no Camaleão Cultural: um encontro de titãs em Curitiba 2
(Luciano Vitor/Under Floripa)

A necessidade do instrumental é algo que transcende a explicação.

Se não há música ou canção vocalizada, existe o instrumental. O instrumental, por si só, é algo que, quando feito de maneira exímia ou diferente, ou mesmo quando chama a atenção ao ser visto e escutado pela primeira vez, é algo notável.

Tendo comprado um vinil do grupo recentemente, esqueci de trazê-lo. Só me restou lamentar por não ter trazido, mas comemorar o excelente show que pude presenciar.

A banda, que retornou de vez à labuta, hoje é formada por Pill, na guitarra e vocalizações; Liblik, no piano; Felipe Ayres, no baixo; e Rafael Panke, na bateria. Do embrião onde tudo começou, somente Pill permanece, mas, com as trocas de postos, o grupo permanece fiel a um estilo instrumental único e quase onírico.

Em um setlist quase que de inéditas, o grupo hipnotizou o público.

O quarteto, de bateria jazzística, reuniu um ótimo público, provando mais uma vez que Curitiba, no quesito bandas fora da curva, está bem servida!

Com um setlist priorizando as inéditas, dos discos anteriores rolaram: “Penhascos, Desfiladeiros e Outros Sonhos de Fuga” e “Cromaqui” (do álbum “Rasura”), além de “Petit Pavé” (do disco “Introdução à Cortina do Sótão”).

As vocalizações de Pill nas últimas músicas me remeteram muito a outra banda fora da curva, e que deve ser apreciada da mesma forma que a ruído/mm, contemplando e com todo o respeito: Sigur Rós.

Podem ter certeza: vocês, leitores, verão mais vezes o ruído/mm nessas páginas, porque é o certo a se fazer!

ORUÃ

Quando te pedirem uma banda ou conjunto fora da curva, mostre esse grupo!

Esse foi o meu primeiro show com Ana Zumpano na bateria. Ana trouxe uma elegância para o conjunto. De uma verve quase jazzística, ela sabe o momento de entrar na música ou nas viagens sonoras e descer a lenha, e isso a torna uma musicista daquelas que admiramos, porque saber se adaptar é para poucos — e Ana o faz com maestria!

ORUÃ & ruído/mm no Camaleão Cultural: um encontro de titãs em Curitiba 4
(Luciano Vitor/Under Floripa)

Que equilíbrio, que caminho e, principalmente, que elegância a de estar num quarteto que não faz o comum e vai além do esperado. E é aí que começa tudo.

Com um setlist forte, abordando os últimos trabalhos — “Passe”, “Slacker”, “Ingreme” e “Sem Benção/Sem Crença” —, o grupo tem uma abordagem política em algumas letras, mas sem ser panfletário. Tem o dedo apontado para as mazelas da rua, mas sem escrever nada “ipsis litteris”. E talvez as minúcias do Oruã sejam justamente as partes que fazem você parar para se perguntar: por que as bandas buscam o caminho mais difícil no palco, quando poderiam soar sempre a mesma coisa?

Porém, os atalhos nesse tipo de arte não são permitidos.

Desde uma série vista quando Lê morava perto da praia até uma fala de Nina Simone, tudo se torna arma musical na competência de João, Lê, Bigu e Ana para fazerem um show maior do que a vasta compreensão.

O show no Camaleão Cultural, na melhor gíria carioca, foi um esculacho. Esquece!

Luciano Vitor

Luciano Vitor

Formado em Direito, frequentador de shows de bandas e artistas independentes, colaborou em diversos veículos, como Dynamite, Laboratório Pop, Revista Decibélica, Jornal Notícias do Dia, entre outros. Botafoguense moderado, é carioca radicado em Florianópolis há mais de 20 anos.