Um show potente, politizado e caótico no Allianz Parque expõe contrastes do Brasil e revive a história do Planet Hemp em meio a falhas de som, convidados especiais e a presença marcante do público.
Um rapaz negro é apreendido pela polícia na periferia de São Paulo com três gramas de maconha no bolso, divididas em petecas — pequenas bolsas improvisadas de sacola plástica, amarradas com fio dental. Ele diz que era para consumo pessoal. Mesmo assim, é autuado por tráfico, passa seis meses preso aguardando julgamento e acaba condenado a oito anos de prisão em regime fechado. Na mesma noite, dois rapazes brancos são detidos no bairro de Perdizes — região nobre da capital — com cerca de cento e cinquenta gramas de maconha e uma balança de precisão. Dizem que era para consumo próprio. Vão para a delegacia e são prontamente liberados.
O que esses dois episódios têm a ver com o show do Planet Hemp no Allianz Parque? Tudo — e, ao mesmo tempo, nada. Essa é a contradição central do Brasil que a banda vem apontando há três décadas.
Chegando ao estádio, depois de uma fila considerável para a revista, a cena já parecia prenúncio da noite: atrás dos seguranças, policiais do Batalhão de Choque controlavam o acesso com capacetes, coletes táticos e cassetetes em punho. Lá dentro, a BaianaSystem já incendiava o público enquanto a pista lotava e as arquibancadas se enchiam lentamente. O espaço central das arquibancadas, porém, permanecia misteriosamente vazio e com entrada restrita — “área reservada”, disseram, sem explicar a quem. Até o final do show, vários assentos seguiram vagos justamente na única parte do estádio com visão completamente desobstruída.
A experiência logística também seguia o roteiro já conhecido dos eventos da 30e: filas intermináveis para retirar o cartão da Zig, mais a demora para colocar saldo e outra procissão igualmente desanimadora para comprar bebida. “É pior que repartição pública!”, resumiu um senhor atrás de mim.
E então veio o primeiro grande problema da noite: o som. O show da BaianaSystem deixou evidente o que se repetiria depois — saturação absurda, equalização pobre, clipping constante, pouquíssima definição. Era difícil até entender as letras. Apesar disso, empolgaram o público, que já ia enchendo o estádio do Palmeiras de outro tipo de verde.
Quando o Planet Hemp finalmente entrou em cena, apresentou Baseado em Fatos Reais / A Última Ponta, espetáculo que funciona como uma autobiografia musical da banda. A narrativa percorre o Golpe de 64, a presença improvável de Peter Tosh em novelas globais, o surgimento do Garage no Rio, a formação do grupo e a morte de Skunk. Passa pelos discos, pela evolução sonora e, inevitavelmente, pela prisão de 1997 — evento que transformou a banda em símbolo e alvo ao mesmo tempo.
Durante o show, as falhas do áudio continuaram — talvez até mais gritantes. O som seguia mal equalizado, sem definição, com muito clipping, microfonia e, em alguns momentos, desincronização evidente entre as torres e arrays espalhados pelo estádio. O baixo praticamente sumiu, a percussão mal aparecia e os DJs quase não tinham presença no mix. Mesmo assim, curiosamente, nada disso pareceu abalar a experiência coletiva: o público cantou, dançou, pulou, rodou e fumou muito, como se o caos técnico fosse parte inevitável do ritual.
A noite teve participações especiais de peso. Além dos já anunciados Emicida, Seu Jorge e Pitty, João Gordo e Black Alien também subiram ao palco. Black Alien foi ovacionado, com razão. Emicida e Seu Jorge entregaram momentos belíssimos em “Nunca Tenha Medo”, “AmarElo” e num medley de “Cadê o Isqueiro”, “Quem Tem Seda” e “Pilotando o Bonde da Excursão”. Seu Jorge ainda arrancou suspiros ao tocar flauta em “Biruta” — talvez o ponto mais sensível e musicalmente elegante do show. Já a participação de Pitty ficou aquém: “Admirável Chip Novo” e “Teto de Vidro” soaram ocos, sem o punch necessário para acompanhar a banda.
Com Black Alien no palco, Marcelo D2 puxou um bis improvável de “Mantenha o Respeito”, em um daqueles momentos em que o estádio parece respirar junto.
Mas a força do show estava justamente na contradição que o inaugurou. Dentro do Allianz Parque, milhares fumavam tranquilamente, levantando isqueiros e baseados. A revista rigorosa, sob o olhar atento dos policiais deixou passar um grande número de sinalizadores, muita maconha e até tesouras. Do lado de fora, no Brasil real, jovens seguem sendo presos — ou não — pelo mesmo motivo, dependendo da cor da pele e do CEP. A maconha permanece criminalizada e, mesmo com a recente decisão do STF, a linha tênue entre “usuário” e “traficante” continua sendo aplicada de forma desigual.
O Planet Hemp, por sua vez, segue dizendo as mesmas coisas de trinta anos atrás — não porque se repete, mas porque o país continua o mesmo. O som e as letras da banda seguem, infelizmente, assustadoramente atuais.



