Domingo à noite na Rua Augusta é sempre uma experiência inusitada. Antes das portas da Augusta Hi-Fi se abrirem, uma fila já se formava na calçada, em frente à casa e ao muro do edifício-condomínio vizinho. Enquanto isso, eu e dois amigos estávamos sentados à mesa num boteco próximo, matando tempo e esperando outro amigo. Enquanto cervejas eram despejadas nos copos, nos perguntávamos qual seria, de fato, o horário da apresentação. O evento, que inicialmente promovia apenas o show da Moptop, teve duas bandas de abertura confirmadas dias antes. No próprio dia, descobrimos que seriam três — e não conhecíamos nenhuma delas. O horário de abertura das portas foi adiantado das 19h para as 18h, e o início previsto da Moptop estava marcado para as 21h10 — um pouco tarde para um domingo.
O tempo passava devagar entre uma banda e outra. Enquanto ouvíamos Two Door Cinema Club e Yeah Yeah Yeahs, o palco era montado em um ritmo paquidérmico. Mais de meia hora se passou do horário previsto e então, finalmente, a banda subiu ao palco, apresentada por um mestre de cerimônias e… afinou os instrumentos.
Foram alguns segundos um tanto inesperados. Depois de tanto tempo esperando a banda entrar em cena, as coisas ainda não estavam prontas. Mas logo passou, e a Moptop abriu com “Contramão”, do álbum Como Se Comportar. O que se seguiu foi uma noite de nostalgia vivida de maneira bem diferente por dois grupos visivelmente distintos. No primeiro — e em franca minoria — estavam os quarentões, como eu. Pessoas que viram e ouviram a Moptop nos seus vinte anos. Alguns que assistiram a banda ao vivo em algum inferninho da cidade, ou em festivais nos anos dois mil e bolinha. Do outro lado estavam pessoas nos seus vinte e tantos ou trinta e poucos, homens em sua maioria, que conheceram a banda na adolescência. A Moptop acabou antes que eles completassem idade suficiente para vê-los ao vivo.
Para nós, do primeiro grupo, era uma noite para rememorar o tempo de faculdade. Tínhamos um representante nacional que cantava músicas sobre as coisas que vivíamos, com um som que nos era familiar — mas em português. Ao contrário de qualquer banda novaiorquina de rapazes ricos, a Moptop era 100% nacional e falava a nossa língua. Para o segundo grupo, era uma oportunidade — talvez única — de ver ao vivo uma banda que mexeu com eles na idade de formação. Esses realmente curtiram o show. Cantaram cada letra e se emocionaram com a banda tocando pertinho, num palco baixo e num ambiente extremamente intimista.
A casa realmente ficou pequena para o número de pessoas presentes. É possível que tenham contado o mezanino como área para calcular a lotação, mas a maioria estava na pista. Pior: o espaço é estreito. A passagem entre a entrada e os fundos do bar — onde ficam os banheiros e o balcão — fazia com que uma constante torrente de pessoas se acotovelasse entre quem já estava posicionado em frente ao palco. Quando não era alguém se espremendo rumo ao banheiro, era um funcionário da casa atravessando com um balde de cerveja sobre a cabeça das pessoas. Isso, somado ao palco baixo e ao som que podia estar um pouco mais alto — mas que era constantemente encoberto pelo público cantando — deixou claro que talvez a casa não seja o lugar mais apropriado para um evento desse porte.
Aliás, você que não canta, mas grita as letras das músicas durante um show: eu te odeio. Muito.
É curioso que metaleiros e punks tenham fama de barra-pesada, mas o público de show indie costuma ser um dos mais hostis. Algumas pessoas — velhas e novas — realmente não sabem quanto álcool devem botar pra dentro antes de se tornarem um incômodo para todos ao redor, inclusive para os próprios amigos e perceiros.
A nostalgia só foi interrompida quando a banda tocou “Last Time” e “Ghosts”, músicas em inglês do último álbum, Last Time. Era visível que a maioria não tinha ouvido o disco e não conhecia as faixas — o que é uma pena. Mas isso não foi um problema. Poucas vezes na vida vi uma banda tão feliz e satisfeita no palco. Não era só um reencontro nostálgico para nós — era para a banda também. O guitarrista Rodrigo Curi sorria o tempo todo.
Apesar do atraso, do aperto e do calor, a Moptop entregou o que prometeu: um reencontro caloroso e catártico. O show encerrou com “O Rock Acabou”, que soou como piada interna e autocrítica, mas também como provocação — e foi cantada a plenos pulmões. Ao sair da casa, tive aquela estranha e familiar sensação de que o tempo é mesmo elástico. Por uma hora e meia, fui transportado de volta a 2007. A Rua Augusta, que aos domingos costuma ser silenciosa e soturna, era outra. Eu também não era o mesmo. Por alguns instantes, fui novamente um jovem cabeludo, de barba rala, estudante da Universidade Federal de Santa Catarina. Já a música — como diz o clássico do Led Zeppelin — permaneceu a mesma.


