“Acho que hoje a gente vai se divertir muito, família.”
Existe um clichê repetido entre músicos e no jornalismo especializado que afirma, quase como um mantra, que cinquenta por cento do resultado de um show depende do público. Talvez haja alguma verdade nisso, mas, na minha modesta opinião, essa máxima acaba colocando responsabilidade demais sobre quem está ali pra curtir. O público indubitavelmente influencia a energia da apresentação, mas a outra metade — e talvez até mais — recai sobre quem está no palco. E não há nada como assistir a um artista claramente se divertindo, entregando mais do que o esperado e criando uma atmosfera em que todos querem participar. Quando isso acontece, o público não precisa carregar nada: ele apenas responde ao que a música e a performance provocam.
Pois bem: neste último sábado, três bandas subiram ao palco do Inferninho e se divertiram.
Ainda estávamos no calçadão, bebendo, fumando e jogando conversa fora, enquanto Pedro Lanches e sua trupe passavam o som do lado de dentro. Tradicionalmente, espera-se que os convidados encerrem a noite; porém, os rapazes tinham hora marcada para pegar um ônibus rumo a Porto Alegre — precisamente às 1h15 da manhã. A banda subiu ao palco com um leve atraso e em silêncio, como quem pede desculpas. Não importava. O show começou em altíssima voltagem com “Olho Roxo”, do álbum de estreia Veio sem maionese.

Pedro e os quatro amigos que o acompanhavam pareciam impossivelmente jovens para a maturidade das melodias e das letras que entregavam. Eles pularam, cantaram, gritaram e ocuparam o espaço inteiro. Havia pouco lugar perto do palco, e algumas pessoas até ensaiaram uma rodinha. Além dos singles recentes — “Eu me lembro de tudo” e “Tatuagens Escondidas” — e das faixas do álbum Veio sem maionese, Pedro fez um cover extremamente competente de “Weird Fishes/Arpeggi”, do Radiohead. Nessa hora, arrancaram um sorriso sincero deste que vos escreve. Ele deixou a guitarra de lado e se concentrou nos vocais, cantando de olhos fechados e absorvendo a energia do público.
O show terminou bem depois do horário do ônibus, mas pouco depois vi no Instagram que eles estavam a caminho de Porto Alegre — então tudo deve ter dado certo.
Uma rápida pausa para mais uns cigarros, mais cervejas e mais conversa jogada fora, e logo a Cranqz estava no palco. O show começou com uma roda de um homem só — um amigo da banda que dançava e chutava o ar como se ninguém estivesse olhando. Aos poucos mais pessoas foram se juntando, cantando e dançando junto. Não sei se entendi a proposta de “punk fofo agressivo”, estampada em camisetas e adotada como rótulo da banda, mas a energia era contagiante. O ar ficava pesado e quente à medida que cada vez mais pessoas iam até a frente do palco. Um destaque claro foi a performance do vocalista Felipe Jun, que entregava letras extremamente pessoais como se estivesse exorcizando um demônio pessoal no palco.

Confesso que a minha maior expectativa para a noite era o show da Tapete Tapete. A banda é uma das favoritas deste site, e seus shows sempre foram muito elogiados pelos editores Luciano “Carioca” e Fred di Lullo. A combinação entre excelentes músicas e uma performance impecável me fez perceber por que o quarteto é, de fato, a prata da casa. Neste momento, fazia um calor infernal — um pouco mais literal do que eu gostaria — mas não importava. O baterista Gustavo Martins e seu Canadian tuxedo de jeans sobre jeans estavam ensopados de suor. Artur Schimidtz e Apenas Carlos, guitarrista e baixista respectivamente, abandonaram suas camisetas, assim como parte do público. Impassível ao calor e ao frenesi que tomava conta da pista, o tecladista Leonardo Antunes formava uma confortável base harmônica para que seus parceiros nas cordas conduzissem a dança.

Do outro lado da pista, eu ria sozinho do meu parceiro de escrita, Luciano, que estava na beirada de uma roda que só crescia — e visivelmente incomodado com as pessoas trombando nele.
A banda cedeu e, mesmo depois de ter declarado o fim do show, tocou mais duas, encerrando com “Eu não sei dançar”. Naquele momento, me peguei revisitando a frase que usei pra abrir esta crônica. Ela saiu da boca do próprio Pedro Lanches, daquele jeito meio encabulado, com um sorriso tímido logo depois de se apresentar para a plateia. Eu não sabia, mas aquelas palavras foram proféticas.
Eu me diverti muito naquela noite.



