As gravadoras estão tentando silenciar o jornalismo musical independente?

As gravadoras estão tentando silenciar o jornalismo musical independente?

(Reprodução)

Antes de escrever, fiz um exercício simples: entrei no meu YouTube e olhei meu feed. Nele, tinha um vídeo sobre futebol argentino, um trailer de um filme de terror que será lançado em setembro, um vídeo do canal Iconografia da História e um vídeo que falava sobre a banda Jovens Ateus.

Ou seja, aos olhos do algoritmo, eu dedico 25% do meu tempo à música. E me pergunto: o que acontece com quem dedica tempo, estudo e paixão para falar de música de verdade, sem ser uma mídia tradicional?

A resposta, para mim, veio com o desabafo de Gastão Moreira, um dos nomes mais respeitados da história do jornalismo musical brasileiro. Em um vídeo (veja aqui), ele acabou expondo a censura que vem enfrentando em seu canal de YouTube, o Kazagastão. E não dá para chamar de outra coisa.

Até porque, quando mais de 50 vídeos são bloqueados, mesmo sem monetização e com o uso pontual e contextual de imagens e músicas, estamos diante de um ataque direto à produção independente de conteúdo cultural.

O estopim? Um vídeo de 47 minutos em homenagem a Ozzy Osbourne, resultado de cinco dias de trabalho intenso. Ele foi derrubado por conter menos de um minuto (não contínuo) de imagens de um documentário, usadas apenas como recurso ilustrativo.

No mundo, esse tipo de uso de propriedade intelectual recebe o nome de fair use. Por exemplo, nos Estados Unidos, os direitos autorais são limitados, sob a qual certos usos de material para críticas, comentários, jornalismo, ensino ou pesquisa podem ser considerados justos.

E o mais absurdo disso tudo: não houve diálogo, não houve aviso e não existe critério.

As gravadoras, editoras ou grandes festivais, que deveriam ver criadores como Gastão como aliados estratégicos, podem tratá-los como ameaça? Enquanto isso, os vídeos mais bobos seguem monetizados, empurrando o consumo musical cada vez mais para o raso. E o conteúdo profundo, reflexivo e bem produzido?

Não é possível generalizar, mas também não tem como tratar essa situação de forma leviana. É um sintoma grave. Em um mundo cada vez mais algoritmizado, onde tudo é caricaturizado e existe uma métrica que se baseia em curtidas e não no conteúdo em si, esse tipo de atitude merece minha atenção.

Eu acredito que música precisa de crítica. Mas também precisa de contexto.

Particularmente, estou nesse caminho hoje porque quero contar histórias. E não posso fazer isso no silêncio. Nem ninguém.

Este texto é uma visão pessoal do colaborador, que tenta acompanhar de perto a cena musical e acredita no jornalismo musical como forma de resistência.

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.