Luto mal resolvido, polêmicas nos bastidores e a saída de Josh Freese abalam a banda
Hoje os Foo Fighters lançaram sua primeira música inédita desde a chocante morte do baterista Taylor Hawkins. Desde então, a banda parece ter entrado em um ciclo turbulento do qual não consegue mais sair. A mais recente reviravolta foi a inesperada demissão do baterista Josh Freese. Veterano de bandas como A Perfect Circle, Guns N’ Roses e Devo — além de ter tocado em mais de 400 álbuns — Freese foi dispensado de forma fria, por telefone, em maio deste ano. Nenhuma explicação foi dada. Nenhuma nota oficial. Nada.
Antes disso, a reputação de Dave Grohl — e, por tabela, da banda — já havia sofrido um abalo considerável. Veio à tona que ele manteve por anos um relacionamento extraconjugal, revelado publicamente apenas porque Grohl seria pai novamente. A diferença? A criança não é fruto de seu casamento de mais de duas décadas. O escândalo pessoal colocou um holofote desconfortável sobre uma figura antes vista como o “o cara mais legal do rock”.
Mas e a música?
Muita gente não se importa com a vida pessoal dos artistas que admira. Querem saber da música, e só. Considerando isso — e falando com toda a sinceridade — a nova faixa, “Today’s Song”, é fraca. Muito fraca. Com Dave assumindo a bateria, ela começa com sua voz característica sobre harmonias suaves de guitarra e teclado, num arranjo que remete a outros inícios de disco da banda. Mas, ao contrário do melhor do catálogo dos Foo Fighters, falta força, identidade, tensão. O riff entra, mas sem pungência. O refrão, que deveria ser catártico, soa oco e sem personalidade.
Se não fosse pela voz de Dave, seria difícil dizer que essa é a mesma banda que nos deu faixas como “Monkey Wrench” e “My Hero”, ou hinos de arena como “All My Life” e “The Pretender” — sem falar em momentos mais íntimos como “Walking After You” e “Times Like These”. “Today’s Song” parece feita no piloto automático, como se a banda estivesse tentando soar como ela mesma e falhando miseravelmente no processo.
Porém — e aqui é um grande porém — mesmo que você não se importe com a polêmica, com a fofoca ou com a crise interna, Dave fez questão de colocar mais lenha na fogueira: hoje, junto com o lançamento da música, ele postou um textão no Instagram. Em várias páginas de texto em caixa alta, assinadas por ele no perfil oficial da banda, Grohl revisita a história dos Foo Fighters desde o início — uma banda que nasceu há trinta anos com ele e o baixista Nate Mendell, logo após a morte de Kurt Cobain. Ele menciona a passagem de Taylor Hawkins — que, segundo ele, faz parte dos pensamentos da banda todos os dias —, cita todos que já integraram o grupo, inclusive Josh Freese, antes de declarar que este seria um momento de reconstrução. Reconstrução da banda. Reconstrução pessoal. Como se tudo estivesse sob controle.
A capa do single é uma arte de Harper Grohl, filha do vocalista, o que sugere que ele realmente está tentando reconstruir os laços com a esposa e os filhos. É um gesto simbólico, mas que soa ensaiado e programático, sugerido por uma assessoria de gestão de crise à Scandal. Mas, para muitos, é como dizem os bretões: “Too Little, too late”.
Por anos, Dave Grohl foi vendido como o “good guy” do rock — acessível, carismático, gente como a gente. Mas essa imagem, que sempre pareceu cuidadosamente construída, começou a ruir. O escândalo familiar foi só o estopim. Para quem prestava atenção, a máscara já havia rachado há muito tempo. Durante os anos 2000, por exemplo, o tratamento dado por ele aos outros membros dos Foo Fighters durante sua passagem pelos Queens of the Stone Age deixou claro o tamanho do seu ego e sua sede por controle. E essa mesma postura transparece agora em “Today’s Song”, onde ele não só canta, como também toca guitarra e bateria. Com a demissão de Freese, a mensagem parece clara: ninguém é bom o suficiente pra tocar bateria na minha banda além de mim.
Pra mim, a máscara começou a cair depois do falecimento de Lemmy Kilmister — também conhecido como “Deus” —, o lendário fundador do Motörhead. Durante o velório do dono das verrugas mais famosas da história do rock, Dave fez um discurso e, de um jeito bem torto, conseguiu transformar aquele momento de luto, contrição e gratidão pela vida de Lemmy em algo sobre ele mesmo. Sem o menor constrangimento, mostrou uma tatuagem recém-feita com o rosto do baixista. Muitos acharam a homenagem fofa, bem dentro do personagem carismático que ele sempre cultivou. Mas, pra mim — e pra muita gente —, a exibição da tatuagem naquele contexto, somada ao tom do discurso, transformou tudo num espetáculo constrangedor. Um absurdo digno de uma esquete do Monty Python. Era como se ele dissesse, olhando para as câmeras: ninguém aqui amava mais o Lemmy do que eu.
Não dá pra falar da construção da imagem pública de Dave Grohl sem lembrar da eterna disputa com Courtney Love, viúva de Kurt Cobain e figura central na mitologia do Nirvana. Por muito tempo, a narrativa dominante tratou Courtney como a vilã — instável, gananciosa, descontrolada — enquanto Dave era o herói resiliente, que seguiu em frente, formou uma nova banda e manteve vivo o legado do amigo morto. Mas hoje, com o distanciamento histórico e a derrocada da imagem pública de Grohl, fica mais fácil enxergar como essa narrativa foi alimentada por misoginia e pela necessidade do rock de manter seus “homens bons” protegidos. Courtney, apesar de ser uma personalidade caótica, sempre levantou questionamentos legítimos sobre os interesses de Dave, sua sede por controle e sua apropriação do legado do Nirvana. Talvez, no fim das contas, ela só tenha dito em voz alta o que muitos evitavam encarar: que Grohl sempre jogou pelas próprias regras e para a própria imagem — sem se importar com quem estivesse no caminho.
A morte de Taylor Hawkins foi uma tragédia. É sempre devastador perder um amigo, e a relação entre Dave e Taylor parecia ser pautada por um carinho genuíno — talvez tenha sido. Mas o que veio depois — o atropelo das decisões, as engrenagens do show que não pode parar, as homenagens duvidosas, a crise de imagem — mostrou que o luto pode virar espetáculo. E que, quando a máquina não pode parar, ela engole até a dor.
Desde então, a banda parece em parafuso. A saída de Josh Freese sem explicações, o novo single insosso, o textão no Instagram tentando costurar narrativa, e o fato de que, neste momento, os Foo Fighters seguem sem baterista oficial. Ainda há datas agendadas para o segundo semestre — incluindo shows na Ásia e no México — mas ninguém sabe quem vai estar na bateria. Pode ser Dave. Pode ser outro nome de aluguel.
Os Foo Fighters continuam. Cambaleando, mas continuam. Talvez porque ainda haja fãs fiéis. Talvez porque Dave Grohl não saiba fazer outra coisa. Mas o que restou da banda? Quando o carisma desbota, quando os riffs perdem a força, quando o público começa a questionar — e até Courtney Love parece ter tido razão o tempo todo — sobra o quê?



