Neon Oni: A banda que não existia. Até existir!

Neon Oni: A banda que não existia. Até existir!

(Reprodução)

Uma banda de metal japonesa bate 80 mil ouvintes mensais no Spotify. Gente colocando no repeat, camiseta sendo vendida, nome aparecendo no Top 5 de fim de ano como se fosse trilha sonora de alguma fase da vida. Tudo normal. Tudo orgânico. Tudo como sempre foi.

Só que não.

Ninguém ali existia.

Nenhum guitarrista obcecado em pedal analógico. Nenhum baixista invisível sustentando a base enquanto o resto leva os créditos. Nenhuma vocalista com rosto angelical e vocal endemoniado.

Era IA, gerada a partir do Suno.

Era tudo um projeto. Um experimento. Um cara na Europa, um computador, algumas boas decisões estéticas e um algoritmo afinado o suficiente pra entender o que soa como verdade.

E funcionou. Funcionou a ponto de ninguém perceber. Ou, talvez, a ponto de ninguém se importar.

Até que alguém percebeu.

E é aqui que a história poderia acabar do jeito esperado: pedido de desculpas, perfil deletado, discurso sobre ética, talvez um Medium longo explicando o experimento social.

Mas não.

O criador fez algo mais interessante. Ele levou a mentira até a sua conclusão lógica: contratou músicos reais.

Sete pessoas de carne, osso e que pagam boletos. Gente que já tocava em bandas de verdade. Gente que agora sobe no palco pra tocar músicas que nasceram sem corpo.

A banda que não existia passou a existir.

E talvez esse seja o ponto mais desconfortável de todos: não houve substituição. Houve encaixe.

Primeiro o público. Depois o artista.

E talvez a pergunta não seja mais “isso é certo ou errado”. Talvez a pergunta seja: quem vai entender isso primeiro?

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.