Um mergulho no legado, na estética e no caos que fazem do The Brian Jonestown Massacre uma banda única.
Há de se pensar a instância do retrô, se quisermos pensar uma banda como The Brian Jonestown Massacre, sua permanência e efeitos no rock em geral e, principalmente, no campo do rock que mais deve a eles desde o fim dos anos 90: o dócil indie rock. Seria Anton Newcombe o culpado por esse monstrengo que morde com dentes de pelica, mas com tanta recorrência que conseguiu usurpar do punk o título de PMDB do pop?
Mais ou menos; mais pra mais do que pra menos.
Consegue-se pensar atrocidades como The White Stripes, amenidades como The Strokes e mesmo Interpol com seus dois grandes discos, i.e., todo esse movimento de tradução da British Invasion (os gloriosos 60’s) e seus revivals – pense no post-punk, no synthpop, no madchester e no horripilante britpop (exceção: The Verve) – filtrados pela épica antagonia velvetundergroundiana (rogai por nós), como invenções malignas do gênio louco Anton Newcombe, do alto de uma incorrigível megalomania, no afã de levar o rock ao fim de sua história e se posicionar, Anton Newcombe, como o Cérbero do panteão dos grandes. E isso jogando o mesmo jogo dos pregos posteriores, o supracitado jogo da filtragem.
Por que, então, The Brian Jonestown Massacre é tão foda? E as bandas indie posteriores, no máximo, legais?
Porque Anton Newcombe é mais inteligente que todos eles. E mais louco também.
Inteligente o bastante para notar que o movimento a ser realizado existe sob a égide da farsa (gostas de marxismo, baby?), e que essa instância passa a obrigar o instante (?) a realizar um movimento duplo: 1. o reconhecimento, i.e., a autoconsciência de se estar habitando o terreno stravinskiano do pastiche devotado; e 2. a loucura de impersonar, sem limites, tal pastiche e vivê-lo enquanto forma de vida (meu amigo Zos Kipple, fluente em psicanalistês, chamou isso de autodefesa narcísica, afirmou já ter conhecido vários autodefensores narcísicos e disse serem as pessoas mais assustadoras do mundo).
Nisso, Anton Newcombe e Tiê Rock têm muito a ver; nisso, Tiê Rock é mais legítimo que mil Julian Casablancas. Ontológica, a questão do rock ‘n’ roll. Mas Tiê Rock se mostra muito pouco autoconsciente, e é da relação estabelecida entre os dois supracitados termos que triunfa The Brian Jonestown Massacre. Disso e das músicas fudidas, exuberantes (é possível esquecer “Super-Sonic” ao vivo? De “#1 Lucky Kitty” ou “Whoever You Are”?), estabelecidas a partir dessa percepção de Newcombe, seja intuitivamente ou não; é como se legitimizar-se no rock, e isso já há muito tempo, exigisse sempre um movimento de estabelecimento duma nova visada ao a priori que lá, sombriamente, o espreita: o fantasma de um pai morto; e então o artista bem-sucedido seria o que internaliza essa percepção, esse movimento referencial, na forma de sua música (gostas de Antonio Candido, baby?).
Mas o fato da visada é localizado em diversas instâncias, entre elas, a história.
Fazer anos 60 nos anos 90, 00, 10 e 20, como vem fazendo o BJM, é, antes de mais nada, ter vivido desde criança os efeitos dos anos 60 nos mundos; suas vastas contradições. O rock ‘n’ roll virando cultura de massa; a permissão ao cabelo longo em homens; as roupas coloridas, a nudez, a pílula, as lutas sociais, o começo da legitimação social do aborto; as jam bands; a psicodelia, a psiconautia, a psicose; MK-ULTRA e os Kool-Aid Acid Tests; Ken Kesey rumo ao México, fugindo da polícia, e Mountain Girl, grávida, deixada para trás e assumindo seu nome de batismo, Carolyn; e Jerry Garcia, Carolyn Garcia; e então um divórcio; a legitimação social do divórcio; napalm, agente laranja; o assassinato de presidentes, os mísseis em Cuba; Jack Parsons, Thelema e a NASA; Karl Germer e Marcello Motta; Castelo Branco, Costa e Silva e o AI-5; Stroessner no Paraguai e a esperança do Cybersyn no Chile: Prometeu finalmente libertado? A gestação política de Pinochet, etc. Michael Aquino, general do Exército americano e dissidente da Church of Satan e fundador do Temple of Set, afirmando, em áudio, que a derrota americana no Vietnã não haveria de terminar no Vietnã; os hippies e Thomas Pynchon, aquele que notou; Velvet Underground e Stooges, aqueles que notaram; a gestação dos Ramones, aqueles que executaram. A paranoia e o medo de tornar-se um deles: um reacionário.

Um sósia do Karl Marx que parecia também um Leão Lobo muito macho, bem na minha frente, de colete jeans com um patch enorme nas costas:
The Brian Jonestown Massacre: Keep Music Evil.
E então The Brian Jonestown Massacre no palco, com “Whoever You Are”. E meu amigo Felipinho, parceiro de inúmeros crimes musicais (gentil o bastante para ter me arrumado um ingresso), com um enorme sorriso estampado na cara. Meu amigo Vickers tirando fotos. Edgard Scandurra, André Barcinski, Fábio Massari e o Ed Motta, que depois descobrimos ser o cronista culinário Jota Bê. Gabriel Thomaz andando pra lá e pra cá o show inteiro, do fumódromo, me atrapalhando (este é um texto de denúncia). Os caras da banda Bike. Todos testemunhando esses anos 60 de ponta-cabeça, totalmente revirados, desenterrados: pra onde foi o cadáver acéfalo de Brian Jones, o primeiro mártir do rock ‘n’ roll, pra sua cabeça decapitada estar ali, exposta no telão, comandando, necromanticamente, o show?
Teria sido seu assassínio na piscina a condição para a imortalidade do rock ‘n’ roll? Logo, sua morte um sacrifício?
Keep music evil.
The Brian Jonestown Massacre entendeu as coisas e sintetizou-as em forma perfeita. Essa formalização, tão criticada em bandas de rock enquanto expediente preguiçoso (AC/DC, Motörhead, Slayer etc.), deve ser encarada doutra maneira: tais bandas descobriram algo na textura do gênero que outras não descobriram; e a reiteração dessa descoberta passa a ser a missão de toda uma carreira. Outras descobriram algo na textura de toda uma cultura (Ramones) e a reiteração passa a ser ainda mais radical. BJM habita um território liminar entre esses dois polos. A descoberta da face dark da década que nos deu “Penny Lane”, “Something” e “Morning Dew” já havia sido feita in loco pelo Velvet Underground e pelos Stooges; a década também nos deu Altamont, Charles Manson e “I Want You (She’s So Heavy)”. O feito do BJM é mais discreto, mas tão importante quanto.
O Keep music evil, então, passa a ser o mantra das possibilidades da sobrevivência do rock: nas sombras.



