O encontro fluvial entre corpos solitários, que ao se cruzarem, em uma mística química do tempo, parecem eternizar, por um segundo, o efeito do afeto.
Essa sensação de alinhamento, quase espiritual, com outro ser, em que dois fluxos coincidem, mesmo que por um breve momento, em uma só direção.
O fenômeno, que o psicanalista Carl Jung chamou de sincronicidade, mesmo que soe como um devaneio lírico, ainda assim, você provavelmente já sentiu esse instante efêmero sem que entramos em uma dança silenciosa. E caso não, talvez o sopro do acaso ainda venha a seu encontro.
Guardamos em nossos corpos o eco do outro, o toque sutil que nos tira de órbita, e nos põe em uma particular coreografia do adeus. Em uma espécie de espiral, nossos conflitos e desejos se dilatam, passando a pulsar em dessintonia à medida que se aproximam.
A psicanálise nos recorda que nossos desejos nascem da falta, se estendendo para além do que é dito, quando reconhecemos a incompletude, e, assim,encontramos apenas aqueles que já habitam nosso subconsciente.
Na astrologia, o desejo, do latim “desiderare”, emerge do silêncio dos astros, da ausência. Somos estrangeiros, oferecendo um ao outro, o vazio: o desencontro que une.
Encontros e desencontros, sustentados naquilo que a rapper indígena Brisa Flow canta de “Presença Ausente”. Essa música, como todas as suas outras, é um mergulho no inconsciente, que nos envolvendo como um canto de uma sereia, nos puxa para dentro de uma visceral viagem nas lembranças que percorrem o corpo ao escutarmos esse trecho:
“Esse desejo pelo reencontro que trará a alegria de
volta. A saudade se parece muito com a fome. A fome é um
vazio. O corpo sabe que alguma coisa está faltando. A fome é a
saudade do corpo. A saudade é a fome da alma.”
Em volta de uma aura artística e melancólica, a voz de Brisa atravessa as ausências latentes da pele, aquela que arrepia a cada verso, revelando as renúncias das fantasias às quais nos agarramos. Sucumbimos ao reencontro: no rio de águas turvas, deixamo-nos seduzir e viajamos para o fundo, de nós mesmos ou do outro? Lá, onde só existem o vazio e a fissura, emergem sensações que nos conduzem a uma verdadeira “Viagem ao Fundo de Mim”, como na música de Rita Lee. Em câmera lenta, voamos e nos esvaímos como pássaros dispersos.
Somos corpos-rio em ritmos internos distintos que, quando entram em confluência passam a vibrar na mesma frequência. Talvez seja nesse espaço que os mistérios da sincronicidade acontecem. Não é coincidência, e, se houver, penso que é preciso que haja uma coincidência qualquer para que o amor se instale. Nesse mosaico de experiências que colecionamos, histórias se unem sem nós e se despedaçam sem adeus.
A passagem nos é eterna.
Em um conto budista, uma tartaruga de um olho, sem pernas, vivia nas profundezas do oceano, podendo flutuar à superfície apenas uma vez a cada mil anos.
À deriva, ela aguardava o encontro, um tronco de sândalo, onde pudesse repousar e se aquecer no sol. A simbologia desse conto é a metáfora da sincronicidade, a ausência de pernas como a falta que habita em nós, tal como as tartarugas suspensas em rios, entregues ao acaso para encontrar o outro. E o outro, que assim como um sândalo, é quem por um instante nos permite repousarmos em nós mesmos.
Sejamos então, corpos síncronos, à deriva.
E se o verdadeiro encontro for com o que o outro desperta em nós?
Como lidar então com o nosso tempo e o do outro quando esses se desalinham?



