Bike (SP) e o barulho como estado de consciência

Bike (SP) e o barulho como estado de consciência

(Reprodução)

Há mais ou menos uns dez anos atrás, assisti a um show da Bike, um quarteto ainda (pelo menos para mim) desconhecido. Foi na Lagoa da Conceição. Em uma das primeiras edições do Festival Saravá. Naquela época, ocorreu dentro de um hostel, que sinceramente, não faço a mínima ideia se ainda existe.

De lá para cá, álbum atrás de álbum, vamos colecionando os petardos lançados pela banda, e mais recentemente, pelo próprio selo: https://www.bikerecords.com.br/

Entre parcerias para lançar outros artistas, turnês na Europa, pelo Brasil e, a partir do dia 14 de novembro, aqui em Santa Catarina, conversamos pelo whatsapp com Julito Cavalcante, vocalista e guitarrista da banda que, acabou de lançar seu mais recente trabalho, “Noise Meditations”, um dos álbuns mais acachapantes do corrente ano.

Jazz espiritual, música hindu e o ruído como mantra

“Ultimamente o jazz tem sido muito presente nas nossas referências”, conta Julito Cavalcante, vocalista e guitarrista. “O Daniel já ouvia bastante, e de uns anos pra cá, principalmente o Spiritual Jazz, entrou forte: Alice Coltrane, Don Cherry, Pharoah Sanders… além disso, a música árabe e hindu também toca nas nossas caixas de som.”

Essa abertura de horizontes explica a amplitude sonora da banda, que nunca se contentou em repetir fórmulas. “A gente também escuta muito post-punk, Fugazi, e vários discos lado B da música brasileira, tipo o Krishnanda do Pedro Santos. E, claro, krautrock — NEU! e Can nunca saem das playlists ou do toca-discos.”

Ter uma banda ainda é o maior desafio

Além de músico, Julito também toca um selo independente. Mas, entre risos, ele confessa:

“Ter uma banda é muito mais desafiador e exige muito mais tempo e criatividade. O lance com o selo é bem mais tranquilo, a gente lança alguns álbuns de bandas amigas, sem se preocupar com plataformas digitais, redes sociais ou venda de shows.”

Manter a Bike ativa, por outro lado, é trabalho em tempo integral:

“Gravar, lançar disco, fazer turnê… tudo isso consome energia. É um processo intenso, mas recompensador.”

Bike (SP) e o barulho como estado de consciência 2

As novas ondas de Santa Catarina

Julito lembra com carinho dos primeiros shows da Bike, especialmente o da Lagoa da Conceição, “muitos anos atrás”, como ele diz. De lá pra cá, muita coisa mudou.

“Existe uma nova geração de público que surgiu depois da pandemia, uma galera mais jovem que não tinha começado a ir pros rolês antes de 2020”, observa.

E entre as bandas que têm chamado a atenção do grupo, ele cita um verdadeiro mapa da nova cena catarinense: Exclusive Os Cabides, Adorável Clichê, Mourisco, Torvelim, Nouvella, Mandale Mecha e o retorno do Muñoz.

A psicodelia, o indie e o noise seguem pulsando, mas agora com novas vozes e sotaques.

Noise como extensão do corpo

O disco mais recente da Bike soa como uma colisão entre o noise e a psicodelia, e isso não foi exatamente planejado. “Proposital não. Acho que foi natural”, explica Julito.

“Nossos shows sempre tiveram muito ruído, e nesse disco tentamos chegar o mais próximo possível do que fazemos ao vivo. A gente é muito fã de Sonic Youth, Velvet Underground e barulhos em geral.”

É nessa fricção entre o caos e a harmonia que a banda encontra seu eixo. Um som que hipnotiza sem precisar ser suave.

O sonho realizado no KEXP

A consagração veio com o convite para tocar no KEXP, em Seattle, uma das rádios mais prestigiadas do planeta quando o assunto é música alternativa.“Foi incrível”, conta Julito.

“Era um sonho da banda e, quando confirmaram nossa apresentação, foi uma alegria imensa. Melhor ainda foi gravar com a Cheryl Waters, no programa dela do meio-dia.”

O feito é simbólico: uma banda independente, nascida no interior paulista, atravessando oceanos para tocar no mesmo estúdio que já recebeu ícones como Nirvana, Fleet Foxes e Khruangbin.

Começar

O transe continua

O som da Bike é como um rio em movimento: muda de forma, mas nunca perde o fluxo. Do jazz espiritual à distorção elétrica, das referências indianas aos riffs dissonantes, o grupo segue orbitando o improvável.

Mais do que revisitar, Bike representa um presente. E em tempos de saturação sonora e imediatismo digital, a banda prova que a psicodelia ainda é um ato de resistência.

Bike se apresenta em Florianópolis no dia 14 de novembro (Véspera de Feriado), no icônico palco da Bugio. A noite ainda tem Exclusive os Cabides. Ingressos antecipados quase esgotando e grande chance de dar sold out até a data do evento.

Crédito das imagens: Rodrigo @fullcrall e André Almeida

Luciano Vitor

Luciano Vitor

Formado em Direito, frequentador de shows de bandas e artistas independentes, colaborou em diversos veículos, como Dynamite, Laboratório Pop, Revista Decibélica, Jornal Notícias do Dia, entre outros. Botafoguense moderado, é carioca radicado em Florianópolis há mais de 20 anos.