Budang e o Hardcore como instrumento político

Budang e o Hardcore como instrumento político

(Reprodução)

Como entrevistar uma banda de um gênero que você não tem muito conhecimento? Pensando nisso, ouvi algumas vezes o primeiro disco da Budang, banda de Florianópolis, que teve um 2025 lotado de shows, disco eleito entre os melhores do ano por nós, e depois de muito aguardar, conseguimos espaço nos corres do quarteto formado por: Guilherme Larsen (vocais), Vinicius Lunardi (guitarra), Pedro Sabino (baixo) e Felipe Royg (bateria).

O hardcore da banda é mesclado com camadas interessantíssimas de outros gêneros e muito disso se deve a diversidade de estilos e referências dispares.

Desde um show do quarteto na Maratona Cultural de 2025, a entender que a banda não foge de críticas ferrenhas a extrema direita mesmo morando em um estado alinhado com tudo que foge ao pensamento da crítica destilada em letras certeiras, Budang veio para fincar de vez a bandeira do HC país afora.

Por troca de mensagens, fizemos uma das entrevistas mais diretas e objetivas do site.

Hardcore não é zona de conforto

Gui (vocalista) não romantiza o cenário. Ele fala de problemas reais, de atritos que acontecem fora da bolha da internet, no contato direto, olho no olho, principalmente em certos tipos de rolê. “Já arranjei problema em shows por causa disso, e não só aqui”, conta. Para ele, a geografia pesa menos do que o ambiente. Eventos ligados a motoclubes, rock clássico engessado, bandas cover de Pantera: é ali que o atrito costuma surgir. E, segundo ele, não é um acidente. “Essas pessoas não podem se sentir confortáveis.” Existe algo quase pedagógico nesse incômodo. Provocar também é parte do trabalho.

Esse espírito atravessa o disco, mas não de forma unidimensional. Ao ouvir o álbum, fica claro que o hardcore da banda não vive preso a um manual. Há grooves estranhos, momentos mais abertos, vozes que escapam do grito padrão.

Começar

O som nasce do atrito

Questionado sobre essa mistura, Vini (guitarra) explica que não existe exatamente um plano. “Não diria que é intencional nem sem querer. É natural.” A banda é um ponto de encontro entre referências muito diferentes, e o som nasce justamente desse choque interno. Hardcore, ali, não é uma caixa fechada, mas um ponto de partida.

Gui complementa trazendo a perspectiva da voz. Ele assume a influência do rap, especialmente de artistas como Beli e Maka, e não faz questão de esconder as costuras. “Essa combinação de rap com hardcore groovado não é novidade”, admite, rindo de si mesmo e das próprias referências copiadas. Muitas músicas, segundo ele, começam de forma íntima, só voz e violão, antes de ganharem corpo com a banda inteira. É nesse processo que surgem acordes mais cheios, uma certa melancolia, um flerte com o emo que vai além do power chord seco. O resultado é um disco que respira mais do que o hardcore costuma permitir.

Influências fora da caixinha (e tudo bem)

Quando o assunto são influências menos óbvias, Vini deixa claro que a lista é longa demais para caber em um rótulo. Ele cita desde Ratos de Porão até Nação Zumbi, passando por Hurtmold, Polara e uma mistura que inclui rap, eletrônico, MPB e indie. “Não gosto de ficar na caixinha do hardcore apenas.” Gui, fiel ao espírito da banda, corta qualquer pretensão com uma resposta direta e afetiva: “Dazaranha”. A piada carrega mais verdade do que parece. Afinal, crescer em Santa Catarina também significa absorver sons que não entram nas listas canônicas do gênero.

A conversa inevitavelmente chega às redes sociais, esse mal necessário do presente. Vini trata o tema com pragmatismo. As plataformas são uma realidade incontornável e funcionam como uma ponte para pessoas que talvez nunca esbarrassem na banda fisicamente. Ao mesmo tempo, existe um cuidado consciente para não transformar a música em refém de trends ou algoritmos. Gui concorda, mas não perde a chance de ironizar: agradece a Vini por assumir essa frente. “É um saco esse serviço”, admite, como quem sabe que divulgar também cansa.

Do bar escondido ao estúdio grande

O momento mais simbólico da entrevista surge quando o Under Floripa pergunta sobre o passado. Aquele adolescente de 14 anos, mentindo para os pais para tocar escondido num bar e dormir no mesmo lugar, conseguiria imaginar que, em 2025, estaria gravando com um dos maiores selos do país? A resposta de Gui vem sem hesitação: “Nem fudendo.”

Ele lembra da temporada no Rio de Janeiro, mais de uma semana dedicada à gravação, cercado de equipamentos absurdos, acompanhando de perto o trabalho de Rafa e Jorjão sobre as músicas da banda. Um processo intenso, daqueles que ficam marcados. Mas Gui faz questão de ampliar o foco: cada gravação, desde os primeiros registros feitos de forma independente até os trabalhos com nomes da cena em Florianópolis e São Paulo, carregou algo em comum: a construção de vínculos. “Rola sempre um momento pra construir amizades.”

No fim, o disco e a própria trajetória da banda parecem existir exatamente nesse lugar: entre o confronto e o afeto, entre a urgência política e a experimentação musical, entre o adolescente que dormia escondido após o show e o músico que hoje atravessa estados para gravar. Hardcore, aqui, não é só barulho. É memória, escolha e presença.

Confira a entrevista na íntegra:

Underfloripa – Como é ter uma banda de hardcore, que não se esconde e aponta o dedo na cara da extrema direita, em um dos estados mais conservadores do país?

Gui: Olha, já arranjei problema em shows em função disso, e não só aqui em Santa Catarina. Existe filha da puta em tudo quanto é canto do nosso país, então, acho que assim, na vida real real mesmo, não coisa de internet, situaçõeszinhas de desinteligência acontecem mais em função do tipo do rolê que chamam a gente pra tocar, do que aonde aonde (geograficamente).

Esses rolê alá motoclube, de rockeirão, com banda cover de Pantera, é onde normalmente dá umas dessa. Porque ao menos temos que provocar essas pessoas, elas não podem se sentir confortáveis.

Underfloripa – Ouvindo o álbum, percebe-se que vocês incorporam outros elementos, além do HC tradicional, é intencional ou foram acontecendo durante as composições e a posterior gravação?

Vini: Não diria que é intencional nem sem querer, é natural na verdade. Cada membro da banda tem referências diferentes e a gente sempre encontra pontos em comum quando estamos tocando juntos. Isso dai que é legal de ter banda em si, unir diferentes visões cria uma coisa nova diferente.

Gui: Pro flou da voz eu chupinho muita coisa de rap, especialmente do Beli e do Maka, mas essa combinação do rap com hc groovado pulapula não é novidade, muita banda faz isso, inclusive copio essas bandas também. E também, muita coisa começa no violão e voz pra depois tocar com a banda toda, então acho que daí já sai um quê de emo, uns acordezinho mais cheio de tchururu, não só poweracorde.

Underfloripa – Além das influências de bandas do estilo HC, tem alguma que ninguém percebe, mas está ali no álbum?

Vini: tem muita cosa, como eu disse antes ali. Somos quatro pessoas com referências bem diferentes até, então vai surgir muita coisa que influencia a gente, mesmo subconscientemente. De Ratos de Porão à Nação Zumbi, Hurtmold, Polara, etc etc… Rap, eletrônico, MPB, indie… Muita coisa pra citar, não gosto de ficar na caixinha do hardcore apenas.

Gui: DAZARANHA

Underfloripa – O quão importante é ser ativo nas redes sociais para divulgar os shows, músicas e álbuns sem cair na armadilha de começar a fazer música para viralizar?

Vini: a rede social é um fato, não tem como fugir muito atualmente. É bom pra se conectar com a galera que curte as mesmas coisas que a gente sem amarras geográficas. É uma ferramenta útil, mas sempre cuidamos pra não cair muito nas trends e ficar refém de algoritmo.

Gui: Vini falou né, não tem como fugir. Mas ainda bem que ele puxa essa frente pra banda, realmente é um saco esse serviço, obrigado VinieÊ!

Underfloripa – Aquele adolescente de 14 anos que mentiu para os pais para tocar num bar escondido e dormir no mesmo lugar, imaginaria que em 2025, gravaria com um dos maiores selos e gravadoras do país?

Gui: Nem fudendo. Desde aquelas época eu curtia compor e tocar um som, então pra mim é uma realização absurda ter essas oportunidades batendo na porta hoje em dia junto com os companheiros de banda. Passar mais de uma semana no rio gravando com só equipo bizarro, vendo o Rafa e o Jorjão trampando em cima das nossas músicas com a gente foi foda pra caralho, nunca vou me esquecer disso. Mas falando dessa coisa que é o momemtom de gravaçãom , todas vezes foram massa, desde o início gravando nois mesmo umas parada, ou com o Guto (Urtiga Records, Quazimorto, Decurso Drama, …) fazendo a boa pra nois aqui na ilha, ou o Caps (Capilé) (Forever Vacation, Water Rats, …) em são paulo, rola sempre um momento pra construir amizades.

Luciano Vitor

Luciano Vitor

Formado em Direito, frequentador de shows de bandas e artistas independentes, colaborou em diversos veículos, como Dynamite, Laboratório Pop, Revista Decibélica, Jornal Notícias do Dia, entre outros. Botafoguense moderado, é carioca radicado em Florianópolis há mais de 20 anos.