Indigans prova que autenticidade ainda é o maior diferencial do indie nacional

Indigans prova que autenticidade ainda é o maior diferencial do indie nacional

créditos: Thiago Mattia e Patrícia Kloc)

Existem bandas que surgem como uma fagulha espontânea. Explosivas, catárquicas, elas são a soma a fúria contida no espírito. Outras, mais intimistas, surgem ao acaso e na necessidade de catalisar sentimentos e ações. Acredito que a Indigans habite no hipocentro destes extremos, num universo próprio. E também acredito que esse território, construído sob distâncias geográficas, emocionais e sonoras, acabam moldando a arte que eles entregam ao mundo.

E o mundo, aos poucos, tem retribuído essa intensidade.

Ao trocar mensagens com a banda, é rapidamente perceptível que cada música é única que nasce ao atrito dos territórios que mencionei agora pouco: introspecção & explosão; metacolina & coragem; delicadeza e fúria.

Entre Terno Rei, Nirvana e a própria voz

A banda fala abertamente sobre as referências que moldam o que fazem, não para se encaixar, mas para entender de onde vêm. Eles citam Terno Rei e Adorável Clichê como influências perceptíveis em faixas como “Quarto Quieto” e “Voltando Tudo ao Normal”, enquanto a herança de Nirvana, Arctic Monkeys e Weezer aparece mais clara em “Todas as escolhas eu errei” e “Q se foda”.

Nada, porém, soa como cópia ou homenagem direta; tudo é diluído, digerido e reconvertido na estética própria da Indigans. Uma estética que, como eles mesmos pontuam, é atravessada pelo lugar onde vivem, pelas limitações e possibilidades de ser uma banda indie distante dos grandes centros.

“Ser uma banda indie de uma cidade menor significa se planejar com antecedência e se virar pra muita coisa”, eles explicam.

Estar longe das capitais não é só um dado geográfico: é um ingrediente. Influencia a fotografia, o conteúdo, o que ouvem, o que escolhem colocar nas músicas. E, talvez por isso, o som da Indigans traz esse ar de isolamento familiar.

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Créditos @rafael__alem

O minidoc, o álbum e a expansão do alcance

O minidocumentário que lançaram recentemente serviu como ponte. Conectou a Indigans com outras bandas de cidades menores, que acabaram virando parceiras de estrada; mas também abriu caminhos para grupos de capitais que passaram a incluir a região na rota. “Através desse minidoc muitas pessoas que ouvem o nicho conheceram a Indigans”, contam. Às vezes, ser visto é só questão de ter a história contada direito.

A sonoridade da Indigans é basicamente uma busca pelo equilíbrio entre riffs mais atmosféricos, melancólicos e nostálgicos e riffs mais enérgicos e ‘revoltados’”, dizem.

Onde tudo acontece: o palco

Para a banda, a música atinge seu ponto máximo nas apresentações ao vivo. Não é romantização; é experiência. “O show é uma das partes mais importantes de uma banda. É ali que a gente cria conexões mais profundas e conhece quem escuta nossas músicas”. Eles contam o caso de Lucas, um fã de longa data, que só entendeu de verdade o significado de “Quarto Quieto” (RESENHAMOS AQUI) quando ouviu a música ao vivo. Isso diz muito sobre a forma como a Indigans funciona: aquilo que no estúdio é lindo, no palco vira real.

Além disso, é no calor da performance que eles testam ideias para o que ainda virá. Shows são terreno fértil, ensaio aberto, laboratório emocional.

Um dezembro esperando para explodir

Os próximos shows já criam um burburinho. E como não poderia ser diferente, nossa Florianópolis é uma das cidades mais pedidas desde o lançamento do álbum. E finalmente vai receber a banda.

Vai ser muito maneiro encontrar essa galera e também fazer um som com o Carmino, que a gente conheceu em Blumenau, e com a Verde Menta, uma galera muito foda que a gente tá conhecendo agora”, dizem, empolgados como quem reencontra gente da própria tribo.

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Créditos @andinh0_

Sim, vai ter mídia física! (e com capricho)

Se existe algo capaz de unir fãs nostálgicos e bandas apaixonadas, é o amor pelo objeto. Indigans sabe muito bem disso.

“A gente curte muita mídia física e a galera pede pra caramba. Nosso plano é lançar o ‘Quarto Quieto’ em CD, com encarte caprichado e tudo mais”. O anúncio foi feito na listening party do álbum, realizada em uma loja de discos em Porto União, terreno mais do que adequado e, segundo eles, “a galera já ficou agitada”.

Talvez seja esse o ponto: a Indigans nasceu longe dos holofotes, mas perto do coração de quem precisa de músicas que raspam, abraçam e explodem. E se o quarto quieto é o espaço onde tudo começa, o palco é onde tudo transborda.

A banda está só começando a entender o próprio tamanho. E o público também.

Indigans segue rodando o Brasil e chega a Florianópolis no dia 12 (ingressos aqui e praticamente esgotados).

Confira a entrevista na íntegra:

Como vocês definem a identidade sonora da Indigans, especialmente com a ausência do contrabaixo tradicional na formação da banda?

Acho que a sonoridade da Indigans é basicamente uma busca pelo equilíbrio entre riffs mais atmosféricos, melancólicos e nostálgicos e riffs mais enérgicos e “revoltados”. Nossas músicas sempre tem esse clima introspectivo e triste que é confrontado por momentos de explosão, onde a guitarra do Ale, que já tem os graves embutidos através de um pedal oitavador, traz um rugido de coragem aos conflitos abordados nas letras.

Quais são as principais influências musicais que inspiram o som da Indigans e como elas aparecem nas composições atuais?

A gente ouve muita coisa indie, mas as principais referências, que inspiram o nosso som, vêm de bandas como Terno Rei, Adorável Clichê, Nirvana, Arctic Monkeys e Weezer. Influêcias das duas primeiras podem ser observadas principalmente em músicas como “Quarto Quieto” e “Voltando tudo ao normal”, enquanto as outras são percebidas especialmente em faixas como “Todas as escolhas eu errei” e “Q se foda”, apesar das referências serem bem diluídas em todas as nossas músicas.

O que a origem de Porto União e o cenário indie do interior do Brasil trazem de particular para a música e o espírito da banda? Muita gente (incluindo eu), fomos atingidos por um vídeo patrocinado onde, num minidoc, vocês citavam alguns motivos de estar “Fora dos Centros Urbanos”. Como esse vídeo também alavancou a banda para novos cenários?

Pra nós, ser uma banda indie de uma cidade menor, fora dos grandes centros, significa se planejar com antecedência e se virar pra muitas coisas, porque estamos longe de tudo e não temos várias opções à disposição o tempo todo, como em cidades maiores. Isso molda nossa visão, modo de criar e trabalhar. O cenário ao nosso redor influencia a sonoridade e estética da banda: fotografia, conteúdos, o que ouvimos e escolhemos colocar nas músicas.

O minidoc em que falamos sobre tudo isso nos conectou com outras bandas de cidades menores, que inclusive se tornaram parceiras na nossa agenda de shows, e também com bandas de cidades maiores, que passam pela nossa região pra tocar nas capitais. Também através desse minidoc, muitas pessoas que ouvem o nicho conheceram a Indigans.

Como foi a experiência de lançar o primeiro álbum “Quarto Quieto” e o que ele representa para a evolução da banda até aqui?

Lançar um álbum acaba sendo bem mais trabalhoso, tanto pela produção mais longa quanto por tudo que faz parte do lançamento em si, mas a conexão com o público é mais profunda, mais completa. Através do álbum, chegamos para muitas novas pessoas que ainda não conheciam a Indigans. Acredito que ele reflete o amadurecimento de todos os aspectos da banda, como composição, sonoridade e shows.

De que forma as apresentações ao vivo contribuem para o fortalecimento do som e da conexão com o público?

Penso que o show é uma das partes mais importantes de uma banda. É ali que a gente cria conexões mais profundas e conhece quem escuta nossas músicas. É no show que a música acontece na essência, com uma energia única. Esses dias o Takezo tava conversando com o Lucas, que escuta a Indigans há um tempo. O Lucas disse que foi justamente em um show da Indigans que ele finalmente entendeu o significado da música “Quarto Quieto”. Além disso, é na performance ao vivo que testamos muitas coisas que ainda estão por vir.

Quais são as expectativas para os shows de dezembro, especialmente para o show marcado para Florianópolis?

Estamos muito ansiosos para os shows de dezembro. Muita gente pediu show em Florianópolis, acho que foi um dos lugares mais pedidos depois que lançamos o álbum. Vai ser muito maneiro encontrar essa galera e também fazer um som com o Carmino, que a gente conheceu em Blumenau, e com a Verde Menta, uma galera muito foda que a gente tá conhecendo agora.

Para finalizar, vocês tem um vídeo nas redes sociais onde mostram A magia das lojas de discos. Podemos esperar para breve o lançamento físico de “Quarto Quieto”, seja em cd, vinil ou ambos?

Certeza! A gente curte muito mídia físca e a galera pede pra caramba. Nosso plano é em breve lançar o “Quarto Quieto” em cd, com encarte caprichado e tudo mais. Na listening party do álbum, que foi em uma loja de discos, a gente anunciou isso e a galera já ficou agitada.

Crédito das fotos: Capa (Thiago Mattia e Patrícia Kloc); Fotos 1 e 2 (@andinh0_).

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.