LEFT/LEAVING: ENTRE O PUNK, O DESAPEGO, OS ANOS 90 E A HONESTIDADE BRUTAL

LEFT/LEAVING: ENTRE O PUNK, O DESAPEGO, OS ANOS 90 E A HONESTIDADE BRUTAL

(Reprodução)

A Left/Leaving nasceu de algo que só o tempo e a amizade conseguem moldar. A banda de Florianópolis foi formada em 2017 por amigos de longa data e carrega no som a herança direta do punk e do indie rock dos anos 1990. Fugazi, Lemonheads, Hüsker Dü, Hot Water Music e Pixies são alguns dos nomes que ecoam no DNA do trio, hoje reforçado por Lucas Baccin (baixo) e Alfredo Luiz (bateria). Em breve, um novo guitarrista deve entrar para completar o time e dar mais corpo ao som.

O grupo lançou em novembro de 2024 seu primeiro álbum homônimo (leia nossa resenha aqui), um trabalho que demorou quatro anos para sair do estúdio, mas chegou maduro, denso e cheio de nuances. O disco, contemplado pelo edital Lei Paulo Gustavo SC D+, veio acompanhado de um making of sobre a produção e o processo criativo, numa janela honesta para dentro da banda e de suas inquietações.

Conversamos com Joel, vocalista e guitarrista, sobre essa trajetória que mistura punk rock melódico, rock alternativo e uma boa dose de persistência.

“A Left/Leaving surgiu despretensiosamente entre amigos de longa data”

Joel relembra o início com um certo ar de nostalgia.

“Há 20 anos formamos a 2 Minutes Hated, uma banda instrumental de Hardcore/Crossover. Quando alguns integrantes se mudaram de Floripa, a banda parou em 2012. O power trio que restou seguiu tocando covers do que a gente curtia, mais alternativo, mais leve. Aos poucos, entre um ensaio e outro, foram nascendo ideias autorais que viraram as 11 faixas do disco.”

Durante a pandemia, o projeto quase congelou: um integrante saiu, outro se mudou do país. Ainda assim, Joel seguiu gravando praticamente tudo, com ajuda de amigos e colaborações pontuais.

“Quando o disco tava quase pronto, conseguimos aprovar a produção de um documentário pelo edital. Desse material, esprememos um clipe também, em 2024.”

De 2016 pra cá, a evolução foi inevitável

O som da Left/Leaving começou com os dois pés no punk rock, mas hoje já flerta com um território mais amplo.

“As músicas foram maturando. Antes, era tudo mais direto, mais punk. Hoje tem mais melodia, mais camadas. Gravamos duas guitarras com linhas diferentes e dobras de voz, e isso abriu outras possibilidades. Agora com o segundo guitarrista entrando, o som vai mudar de novo e a gente gosta dessa ideia.”

O processo criativo é cru, mas meticuloso

Joel descreve o processo de composição como algo “simples, mas nada romântico”.

“Não existe dom, é trabalho mesmo. Costumo começar improvisando acordes e melodias de voz, sempre em inglês, porque foi o que ouvi a vida toda. Depois monto uma demo com bateria, baixo e guitarra, pra visualizar o arranjo. Quando acho que esgotei as ideias, levo pra banda e a coisa ganha outra forma. Mesmo assim, gravo os ensaios e fico ouvindo mil vezes pra entender o que pode melhorar. É uma pré-produção meio bruta, mas sincera.”

Sobre a cena independente de Florianópolis

A visão da Left/Leaving sobre o cenário local é realista:

“Tem bastante banda boa e bastante show, mas os espaços ainda precisam evoluir em acústica e estrutura. Muita gente acha que por ser underground, dá pra fazer de qualquer jeito. E aí fica difícil atrair público. Nosso papel é oferecer shows bons, ensaiar toda semana, tratar a banda com seriedade.”

Joel é direto quando o papo chega no velho clichê do apoie a cena.

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“Apoiar é legal, mas não faz sentido se o básico não melhorar. Ninguém vai trocar uma praia ou um filme pra ver um show ruim, com som ruim. Então, o mínimo é entregar um trabalho bem feito.”

As letras: entre o pessoal e o político

O álbum de estreia é uma coleção de fragmentos íntimos e reflexões sociais.

“A maioria das letras são pessoais, mas tem faixas mais politizadas, como as 6, 9 e 11. A ‘You’re Afraid!’, por exemplo, é de um amigo, o Fabio Aquino, da nossa antiga banda Ciudad Cae. É uma crítica direta às ideias neoliberais, aos herdeiros e ao medo que essa galera tem da mobilização popular. No fim, é sobre o medo que o poder tem de perder seus privilégios.”

O futuro: novos shows, novas formações e talvez um vinil

Com a volta aos palcos e o entrosamento do novo guitarrista, a Left/Leaving planeja um 2025 mais ativo.

“A ideia é tocar mais, aqui e fora. E claro, começar a compor material novo. O vinil seria legal, tem muita gente voltando pra isso, mas não é prioridade agora. Quem sabe num split com outra banda? Ajudaria a viabilizar financeiramente e faria sentido dentro do que acreditamos.”

Honestidade como estética

A Left/Leaving não tenta reinventar a roda, e talvez seja justamente isso que os torna interessantes. O som é cru, mas bem construído; as letras são pessoais, mas nunca se fecham em si mesmas. Há uma sinceridade que atravessa cada faixa, cada fala.

Em uma cena onde muitos ainda tratam o “faça você mesmo” como sinônimo de improviso, o trio (agora quase quarteto) mostra que a independência pode (e deve), vir acompanhada de cuidado.

E, no fim das contas, talvez seja isso que defina a Left/Leaving: uma banda que faz tudo do seu jeito, mas sem jamais perder o senso de propósito.

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.