Under Floripa entrevista: Homeninvisivel (SP)

Under Floripa entrevista: Homeninvisivel (SP)

(Reprodução)

A cena musical paulistana sempre efervesce com talentos, e um dos nomes que consistentemente se destaca é o da banda Homeninvisivel. Conhecidos por sua sonoridade introspectiva e letras profundas, o grupo agora nos convida para o início de uma nova fase marcante.

Por isso, mergulhamos com a banda em uma conversa que explorou, dentre outras coisas, suas origens e processo criativo. Confira na entrevista exclusiva:

UF – Como vocês enxergam a mistura de post-hardcore, emo e shoegaze na sonoridade da banda? Quais são os desafios e as recompensas de criar um som tão difícil de rotular? Entre 2018, no lançamento do primeiro single, até hoje, como enxergam a evolução da cena alternativa de SP?

Darkk: A mistura de post-hardcore, emo e shoegaze aconteceu naturalmente. Cada um da banda traz influências diferentes, e o som foi se moldando com base nisso de forma natural. O shoegaze entrou no começo, com as camadas e a introspecção; o emo veio da vivência emocional mesmo, e o post-hardcore apareceu quando a gente quis falar com mais força e impacto, tornando o som mais visceral.

Fazer um som difícil de rotular tem seus desafios, claro. Às vezes é mais difícil entrar em certas bolhas, encaixar em line-ups, playlists, ou até explicar pra alguém quando perguntam “que tipo de som vocês fazem?”. Mas a recompensa é que a gente está criando algo que é realmente nosso. A liberdade de não caber num molde é o que permite que a gente continue se transformando sem perder a essência. E a gente gosta disso.

A cena alternativa de SP mudou muito desde 2018. Muita coisa surgiu, muita coisa se perdeu no caminho. A pandemia bagunçou tudo, mas também deixou quem realmente acredita no rolê. Eu acredito que hoje tem menos espaço, mas também mais verdade. E a gente segue porque acredita nisso aqui. Fazer música pra durar. Eu fico feliz de ver que a cena musical alternativa ainda respira em SP, e que existem novas bandas com som autoral chegando e atingindo lugares importantes nacionalmente. Assim como novos festivais, selos, produtoras… tudo que envolve o rolê independente. A gente sabe que é difícil sobreviver nesse capitalismo selvagem de hoje, então por isso eu valorizo muito quem tá disposto a fazer o rolê acontecer – principalmente pelo fato de que no final do dia não é sobre dinheiro, é sobre paixão mesmo.

Hari: Eu vejo a gente num dilema: não é tão pesado pra ser considerado hardcore, não é tão shoegaze pra fazer parte de um role mais indie e nem tão emotivo pra ser considerado um sunny day real estate brasileiro. As vezes sinto que estamos realmente num ponto em comum a tudo isso, uma carga coringa mesmo! Mas ao mesmo tempo vejo que isso pode nos trazer algum tipo de originalidade e sair do óbvio quando alguma banda nova surge e rotula com esses gêneros. Entretanto, tudo isso sobre nós, é simplesmente como somos. É um reflexo nosso!

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UF – O single “Navalhas” fala sobre isolamento e autoconhecimento. Como a experiência de gravar no estúdio Toth e trabalhar com Dan e Fe Uehara influenciou o processo criativo dessas letras e do som?

Darkk: Gravar no Estúdio Toth com o Dan e o Fer foi uma experiência transformadora pra gente. A homeninvisivel até hoje era uma banda feita praticamente em um quarto. Tudo até aqui foi produzido de forma independente, na raça mesmo. E justamente por isso, essa ida à um estúdio consagrado como o Toth foi um passo simbólico e necessário: a gente queria sair da zona de conforto e trabalhar com pessoas que tivessem cancha pra ajudar a gente a crescer artisticamente. A escolha pelo Dan e o Fer foi muito consciente. Além de serem produtores extremamente respeitados dentro da cena alternativa brasileira, eles também fazem parte de uma banda que nos influenciou em vários momentos, o Bullet Bane. E foi justamente essa conexão que tornou o processo ainda mais rico: eles entenderam a nossa essência e, ao invés de tentar moldar o som, ajudaram a expandir aquilo que já existia na gente.
Estávamos atravessando uma transição: deixando pra trás uma estética mais noise e shoegaze, e mergulhando com mais convicção no post-hardcore. Trabalhar com eles foi como acionar um novo estágio de maturidade da banda. Eles trouxeram técnica, visão e sensibilidade, sem apagar o que somos… pelo contrário, ajudaram a acentuar. E acredito que isso se reflete com força em “Navalhas”.

Hari: Particularmente falando, sou muito fã dos dois e do bullet bane. Quando eu morava em Belém/PA, ajudei na produção junto com outros amigos em alguns shows deles pela cidade… então, foi uma troca muito fácil e leve o processo todo em estúdio com eles. E sabíamos que com o que eles oferecem no estúdio toth, nos ajudariam a materializar o som que estava em nossa mente (a minha principalmente).

UF – A Homeninvisivel carrega uma ética DIY desde o início. Como isso se reflete na produção dos discos e na organização dos shows? Quando teremos o primeiro Full length da banda?

Darkk: A ética DIY sempre foi parte de quem somos. Quando fundei a banda ali por 2017, não conhecia nada nem ninguém em SP. Não foi fácil chegar e montar um projeto musical do zero, mas aos poucos as coisas vão acontecendo, obviamente fruto de muito, muito trabalho. Desde o começo, a gente aprendeu a fazer tudo por conta própria — gravação, arte, divulgação, show. Isso garante que tudo que a gente lança tem a nossa identidade própria, do início ao fim. Trabalhar com outras pessoas, como foi no Toth, é sempre pra somar.

Sobre o full length: a vontade existe, sim. Mas a gente prefere fazer as coisas no nosso tempo, com consistência. Agora com o novo EP saindo em julho, sentimos que é só o começo dessa nova fase. O disco completo vai chegar na hora certa.

Hari: A banda é bem autossuficiente em algumas áreas pois utilizamos as habilidades e materiais que temos pra poder fazer a banda andar. Por exemplo, o Tucca é designer, o Lucas é jornalista, então eles usam isso em prol da banda. Temos câmera, um computador legal, conseguimos fazer nossas pré produções antes de entrar pra gravar, enfim, usamos tudo que podemos ao nosso favor. Somos uma banda que realmente não tem nenhum tipo de apoio externo (no quesito financeiro e entre outras facilidades), então tudo que temos alcançado até aqui é fruto de muito trampo, inclusive as pessoas que já passaram pela banda também fora muito importantes pra banda estar onde estar e somos gratos a eles.

Como o Darkk comentou, ainda não estamos pensando no full length. Na verdade, está sim nos planos ter um, porém agora estamos focando 100% nas músicas que iremos lançar.

UF – Quais são as principais influências literárias, visuais ou musicais que inspiram as letras e a atmosfera da banda, especialmente considerando a poesia concreta de São Paulo e as referências internacionais como DIIV e My Bloody Valentine?

Darkk: Eu costumo dizer que eu escrevo músicas sobre solidão. E eu acho que desde o início da banda até hoje, isso nunca mudou. Particularmente, nas minhas letras eu costumo desabafar tudo que eu sinto e não consigo expressar com palavras. Então a música é o meu refúgio, através de descrever essa experiência pessoal mesmo. Quando me mudei para São Paulo em 2015, me encontrei sozinho, afastado de amigos que vinham ao meu lado desde a minha infância, conhecendo e descobrindo as coisas boas e as coisas ruins de uma cidade cinza que eu nunca quis viver, então isso tem um impacto muito grande na minha vida pessoal e consequentemente nas minhas composições. As influências de DIIV e My Bloody Valentine ficaram evidentes no primeiro EP da banda, Formas Negativas (2018). Hoje sinto que amadureci musicalmente e a banda é um reflexo disso. Me abri para poder levar a banda em outra direção. Sinto que hoje estamos passando por uma experiência de amadurecimento e crescimento musical juntos como banda. E me sinto confortável com o rumo por onde estamos caminhando.

Hari: Fora que a banda foi mudando de formação ao longo desses anos, consequentemente reflete nessa mudança de sonoridade que o Darkk menciona, e claro, reflete também no lirismo. As letras no início tinha um teor mais existencialista e hoje são mais reflexivas falando de assuntos do cotidiano de pessoas comuns (nós).

Hoje em dia temos mais influências do Title Fight, Lifetime, basement, fiddlehead do que DIIV ou My Bloody Valentine, porém de alguma forma isso ainda está nas entrelinhas.

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UF – Vocês mencionam que os shows são experiências de catarse e desconstrução. O que esperam que o público leve dessas apresentações e como pretendem evoluir essas experiências ao vivo? Alguma previsão de chegar aqui em Florianópolis?

Darkk: Costumo dizer que o principal do nosso show é conexão pela catarse. Queremos construir isso no nosso público. Nosso show é o momento de se desprender. De dançar, pular, fazer mosh. E as novas músicas e o caminho sonoro que estamos seguindo indica muito para este caminho. Essa nova fase da banda se concentra em tocar músicas mais rápidas, com mais energia, tornando a nossa experiência de show mais visceral do que antes. Sobre shows em Floripa: estamos trabalhando para isso! Eu acabo de me mudar para a ilha, pretendo passar uma temporada por aqui e estou começando a conhecer os lugares que a galera costuma frequentar. Recentemente fui ao Brocave pub e gostei muito do lugar. Além do mais, a cena musical de Santa Catarina e região hoje está muito interessante. É legal ver que existe uma nova cena acontecendo fora do eixo rio-são paulo – que é uma bolha, e às vezes nos impede de ver o que está rolando fora. Posso citar aqui bandas como Quazimorto, Centroleste Autopeças, Planoreal e, claro, as já mais conhecidas Budang e Adorável Clichê, por exemplo. Então sim, com certeza queremos chegar em Florianópolis com nosso show eventualmente, assim que for possível!

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.