Under Floripa Entrevista: Olivia Yells (PR)

Under Floripa Entrevista: Olivia Yells (PR)

(Reprodução)

Aproveitando a proximidade do seu show em Florianópolis, temos a oportunidade de mergulhar no universo intenso e autêntico de Olivia Yells, cantora e compositora curitibana que vem conquistando espaço na cena do rock alternativo brasileiro.

Com suas letras introspectivas e uma sonoridade que mistura melancolia, revolta e uma energia visceral, Olivia é uma artista sensível, que congrega um som moldado no indie rock mas que bebe de diversas fontes.

Neste bate-papo exclusivo, ela compartilha não apenas sua trajetória musical, mas também suas inspirações, processos criativos e a força de sua voz feminina e política em um cenário muitas vezes desafiador. Bora pra leitura?

UF – Olivia, você pode compartilhar conosco como começou sua jornada na música? Quais foram os momentos ou motivações decisivos que te fizeram seguir carreira artística e como esses primeiros passos moldaram quem você é hoje como artista?

Eu vasculho e vasculho minhas memórias e sempre me dou conta de que tudo começou quando eu ficava dentro do meu quarto ouvindo CD’s da Demi Lovato e tentava imitar as notas agudas e melismas que ela fazia. Desde pequena me entendo como uma pessoa mais tímida, e naquela época, eu tinha bastante dificuldade em expressar meus sentimentos. Cantar notas altas parecia aliviar um peso gigante dentro de mim, escrever no meu diário era outra prática que me ajudava muito como válvula de escape. Pouco tempo mais tarde, essas duas atividades levaram a criação das minhas primeiras músicas. Dentro de tudo isso, considero o ano de 2015 o mais marcante: quando eu comprei um violão usado e aprendi os primeiros acordes com uma amiga minha. Ali explorei minha musicalidade como nunca antes e isso me incentivou a tomar meus primeiros passos em direção à ter coragem em expor ao mundo todo esse trabalho pessoal.

UF – Suas composições costumam abordar temas sensíveis, como autoconhecimento e superação. Como é transformar essas experiências pessoais em música e compartilhá-las com o público?

Eu me sinto cada vez mais nua, é extremamente desafiador compartilhar minhas histórias com o público. Mas, algo que sempre martela dentro da minha cabeça é o fato de que eu criei esse projeto/minhas músicas afim de me conectar com aquelas que experienciavam coisas semelhantes. Era meu refúgio – e ao longo do tempo – torci muito pra que servisse também de refúgio para outras meninas e mulheres.

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UF – Além de cantora e compositora, você atua fortemente na produção musical e audiovisual dos seus projetos. Quais os principais desafios e recompensas de assumir tantas etapas do processo criativo?

O principal desafio é não ficar doida no processo. A maior recompensa é que eu tenho o privilégio de trabalhar com uma das pessoa que eu mais admiro dentro do ramo do audiovisual e da vida, a Maju Tohme. Somos melhores amigas desde a faculdade de Fotografia e nos unimos dentro do meu projeto para alavancar uma à outra. Criamos algo muito forte que isso reflete em absolutamente todos os âmbitos. Compartilhamos de estéticas, conceitos e vivências muito semelhantes e isso definitivamente facilitar na hora de criar trabalhos audiovisuais.

UF – Seu último EP, “Waiting Room (2023)”, mostrou uma evolução forte na sua sonoridade e maturidade artística. Como foi o processo criativo desse trabalho e como ele reflete sua trajetória até aqui?

O “Waiting Room” é uma coletânea de músicas que eu tenho escritas desde 2017. São canções que refletem o processo da espera diante da cicatrização interna em paralelo com aquilo eu aprendi sobre o amor durante os meus anos formativos. Esse trabalho me trouxe um coragem ainda maior em abrir partes tão feridas minhas, as quais viraram objeto central de estudo no sucessor do WR, meu próximo trabalho que está em andamento. E a coragem que eu ganhei não está só no ato de lançar, mas da força de ver quantas pessoas se conectaram com as minhas músicas. Esse é, definitivamente, o melhor dos incentivos.

UF – Dia 09, tem um rolê muito legal aqui em Florianópolis, numa casa de shows no coração da efervescência cultural local, o Haôma. Qual sua expectativa? O público pode esperar algo inédito ou especial nessa noite?

Eu tô muito ansiosa! Vai ser meu primeiro show fora de Curitiba e pra mim isso é simplesmente surreal. Eu sempre sonhei com o momento em que eu pudesse levar meu trabalho para outros estados. Nesse show, “DUMB” entra como a música inédita do show, meu lançamento mais recente. Essa é uma música que eu exploro uma perfomance sem guitarra, e para quem me acompanha, sabe que esse é um momento raro! Levarei, também, meu merch limitado e extremamente especial da turnê, que conta com uma estampa frente e costas criada pelo Damaged Artwork. Obs: nas costas tem as datas da desse meu primeiro giro em estados diferentes!!!

UF – Para terminar, o rock alternativo brasileiro (e paranaense) tem conquistado cada vez mais espaço. Quais artistas ou movimentos da cena atual te inspiram e como você vê seu papel nessa nova geração do gênero?

Aqui em Curitiba venho acompanhando o trabalho de artistas como Mariposa Alice, Vic Wendler, Julia Kluber, Lia Kapp e bandas como Demos, Azul Delírio, Mordazes Musgos, Patada, Demolidoras… De outros estados, gostaria de dar um destaque à The Monic e a Dirty Grills, a qual terei, finalmente, o privilégio em dividir palco nessa minha passagem por Floripa. Estamos vivendo um momento em que a cena vem dando um boom de artistas e bandas novas compostas por mulheres, pessoas trans e não binárias, e isso me deixar absurdamente feliz! Lembro de, em 2018, assistir shows de bandas locais e ansiar muito pelo momento em que eu pudesse fazer o mesmo. Essa representatividade é o que mais me importa hoje em dia. Quero poder me tornar cada vez mais uma ferramenta de incentivo, uma criadora de espaço para que outras mulheres se aventurem à pegar uma guitarra e gritar.

Agradecemos imensamente a Olivia Yells por abrir seu universo e compartilhar sua arte, suas lutas e suas inspirações conosco. E convidamos todos para dia 09 de agosto, no Centro Leste!

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.