Música

Buena Vista Social Club: a revolução silenciosa que tocou nossos ritmos

Quando Ry Cooder cruzou as vielas de Havana e ligou os gravadores para registrar o som dos músicos esquecidos do Buena Vista Social Club, ele não só fez história, provocou uma revolução. Uma revolução de timbres, de sotaques musicais, de afetos que, mesmo banhados pelo Caribe, escorrem como melado nos becos da Lapa, nos bares de Olinda, nos terreiros do Recôncavo Baiano ou nos estreitos inferninhos dançantes da Augusta.

O Buena Vista Social Club teve a grata missão de fazer renascer o bolero, o son e o danzón, além de lembrar ao mundo que a música não morre e não é esquecida. Pode, sim, adormecer em guitarras desafinadas ou em vozes que sabem, mais do que ninguém, o peso do esquecimento. Ou do amor.

Pode não parecer, mas o Brasil, numa época em que os algoritmos eram consumidos em formato de jabá, revistas, programas de auditório e vendas de discos, ouviu essa música.

A ponte sonora que desceu pela costa do Atlântico

Não foi apenas um revival. O Buena Vista Social Club, no final dos anos 1990, causou um verdadeiro abalo sísmico na música brasileira, influenciando diversos artistas em sua busca por raízes e ancestralidades.

A turma cubana foi responsável por ressuscitar elementos como a percussão sincopada e as harmonias simples. Pela dança.

Maria Bethânia regravou e apresentou Guantanamera, um clássico cubano, por volta de 2001, inclusive há um registro em vídeo no Canecão, na turnê que comemorava seus 35 anos de carreira. Esse exemplo denota, numa amostragem preliminar, como os músicos cubanos foram representativos para nós. Mas não é só isso.

Timoneiros de uma latinidade esquecida, mas lembrada até hoje

Seja no eixo Rio–SP ou em alguma cidade do interior, bandas como Móveis Coloniais de Acaju, Bixiga 70 e até o BaianaSystem começaram a costurar esses sons cubanos em colagens cheias de groove, berimbau e metais. Sim, era o sopro de Compay Segundo e Jesus “Aguaje” Ramossurgindo entre beats e beats de uma nova geração que talvez nunca tenha pisado em Havana, mas sentiu seu calor.

Tudo isso graças ao Buena Vista: um disco, um documentário e um manifesto em forma de bolero, chorando ao som de um trompete.

Buena Vista Social Club está em turnê pelo Brasil: você vai perder?

Formado por integrantes originais do Buena Vista Social Club, o grupo cubano Buena Vista Social Orchestra, com direção musical de Jesus “Aguaje” Ramos (trombonista original do projeto), desembarca pela primeira vez no Brasil para uma extensa e animada turnê de 23 shows.

Em Florianópolis, o grupo se apresenta no dia 23 de abril, no Oceania Convention Center. Ainda restam poucos ingressos, que podem ser adquiridos clicando aqui.

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.

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