Acho curioso o movimento que existe no rock atual de olhar para os anos 90 não com nostalgia, mas como uma continuação lógica, como se as duas décadas e meia que vieram depois não tivessem existido. Como se o grunge não tivesse morrido, mas evoluído para algo além de uma leva de bandas que, no fundo, são imitações baratas (Puddle of Mudd) de uma imitação barata (Nickelback) de uma imitação barata do Pearl Jam (Creed). Como se o garage rock revival dos anos 2000 — os Strokes, o Interpol, o Parquet Courts e os Arctic Monkeys — nunca tivesse tocado fora de inferninhos infestados com o odor de cerveja choca. Um mundo sem Dave Grohl.
É nesse mundo alternativo que a ExWife habita.
Desde as primeiras notas de “Shadows”, faixa que abre Blow, o primeiro álbum da banda de Oregon, há um espírito que transcende a reverência e a nostalgia onde muitas bandas contemporâneas se perdem. Os timbres e as progressões de acordes poderiam ser algo saído de uma demo esquecida na casa onde o Billy Corgan cresceu. Ao longo do álbum é possível ouvir claramente outras influências noventistas, como L7, Tori Amos e Hole. Mas, mas apesar da amálgama de influencias, há um caráter e uma personalidade distintamente únicos no som da banda.
Boa parte do mérito disso está na voz e líricas da vocalista Alexandria Bonanno. As letras tratam de temas que poderiam ser corriqueiros, amores perdidos, corações partidos e coisas assim, mas tratadas com ironia e uma pontada de humor autorreflexivo, além de uma boa dose de sensualidade, e assim fogem do lugar comum. Em “Light of the World”, uma guitarra solitária com uma boa dose de overdrive poderia ser apenas uma música confessional, mas combinada com a voz de Alexandria, ela se torna uma prece. Uma prece por amor, por prazer, pelo sentimento de se sentir desejada, por algo intangível dentro de um relacionamento impotente.
É curiosa a relação da música com o sexo e a sensualidade neste álbum. Nada soa apelativo ou gratuito; o desejo é tratado mais como anseio e frustração do que como fantasia ou conquista. Em Blow, essa tensão atravessa canções que poderiam cair em chavões bobos, mas ganham densidade justamente pela vulnerabilidade e ironia com que Alexandria canta sobre relações estéreis, carência e prazer como necessidade vital. A voz quebra, mas quebra com naturalidade e a doçura de um abraço.
É nessa vulnerabilidade — e sagacidade — onde reside a maior força do quarteto. A banda não trata os anos 90 como fetiche, mas como língua viva. Blow não é uma homenagem ou resgate. Ao ignorar deliberadamente o que veio depois e focar na própria história, a ExWife parece entender que certas perguntas, desejos e desconfortos nunca serão resolvidos.
Blow – ExWife
Gravadora: Independente
Quente como a brasa de um cigarro. Molhado como um beijo.
