Boogarins – Manual (10th Anniversary Deluxe Edition) (2025)

Boogarins – Manual (10th Anniversary Deluxe Edition) (2025)

(Reprodução)

10 anos de Manual (Ou Guia Livre De Dissolução Dos Sonhos), segundo álbum dos Boogarins

Na última quinta-feira, 30/10, a banda goiana Boogarins lançou uma versão deluxe e comemorativa do álbum Manual (Ou Guia Livre De Dissolução Dos Sonhos), segundo trabalho discográfico da banda e que, em 2025, completa 10 anos de seu lançamento original.

Pensar na trajetória deste disco, de seu aparecimento até aqui, envolve temas como a “negação” de sua continuidade imediata por parte da banda, o Clube da Esquina e também o mais recente trabalho do grupo, o disco Bacuri, lançado no ano passado. Mas, antes: voltemos ao começo.

Começar

Pensar o título de Manual – e ainda reforçado pelo seu subtítulo: Ou Guia Livre De Dissolução Dos Sonhos -, a mensagem é de que o álbum se trata também de um compilado de orientações acerca da livre-dissolução-dos-sonhos. Mas “manual” também indica manuseio: algo feito com as mãos. E nessa conexão, podemos ligar o título com o seu método de gravação analógico, inédito na carreira da banda e que, pelo que me lembro, o guitarrista, compositor e produtor dos Boogarins, Benke Ferraz, diz não ter sido o método ideal para aquele momento da banda.

Porém, é inegável seu êxito. Mesmo que o primeiro álbum da banda, As Plantas Que Curam, já tenha sido lançado pelo selo norte-americano Other Music Recording Co., a circulação internacional da banda se intensifica em Manual, que foi gravado na cidade espanhola de Gijon, o que contribui muito na circulação do som – e, consequentemente, da própria banda em shows – pela Europa e América do Norte, Central e Sul, sem nunca deixar de tocar muito pelo Brasil.

Manual também é marcado pela adição do baterista Ynaiã Benthroldo na banda – hoje, parte indissociável do som pelo qual os Boogarins são característicos. Ele entra em meio às gravações do álbum e acaba gravando apenas na faixa “Falsa Folha de Rosto”. Por isso, o álbum também tem em seus créditos o nome de Hans Castro, primeiro baterista do grupo. Nisto, o lançamento deluxe se expande: com as faixas extras (combinado de demos, reprises, lives e remixes), temos a presença de outras versões das faixas conhecidas do disco. Em algumas, como a demo de 2013 de “SELVAGEM”, é o próprio Benke que faz as baquetas, mas o trabalho também apresenta ainda três lives finais nas sequintes localidades: Hermosillo, no México, e Anchorage, no Alaska, todas tocadas com Ynaiã na formação da banda. Um ótimo bônus para os amantes da banda ao vivo (eu, réu confesso).

Começar

Agora, voltemos aos tópicos levantados lá no segundo parágrafo. Primeiro, quando cito certa “negação” na continuidade imediata de Manual na carreira da banda, isso não se relaciona com o repertório do disco, constantemente revisitado pelo grupo em seus shows, tendo canções como “Alavanche”, “Tempo”, “6000 Dias (Ou Mantra Dos 20 Anos)” e “Benzin” sendo músicas conhecidas por grande parte dos fãs.

Mas é inegável que há, logo na sequência do trabalho dos Boogarins, um rompimento com a sonoridade apresentada em Manual. Lá Vem a Morte, lançado dois anos depois e encabeçado pelo hit supremo “FOIMAL”, é digital, recheado de loops, beats, baixos sintetizados e toda engenharia de Benke na frente de seu Ableton Live. E a toada segue: o oficial Sombrou Dúvida, de 2019, e as compilações Manchaca (Vol 1 &2) são frutos do mesmo experimento, realizados todos nos Estados Unidos, justamente na rua chamada Manchaca que nomeia as compilações.

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Fotos: Meu CD do Lá Vem A Morte autografado por Dinho, Benke e Fefel – Chapecó, dezembro de 2018.

Na mesma pandemia onde Benke resolveu fuçar nos arquivos da banda e montar a partir de recordes, ensaios, gravações caseiras e em estúdio, os dois volumes das compilações Manchaca, a banda começa a circular em lives (lembra disso?) tocando o repertório do Clube da Esquina a partir do prisma de sua sonoridade.

Altamente influenciados tanto pelos trabalhos mais conhecidos daquele grupo de artistas mineiros – o Clube da Esquina de 1972, o “disco do tênis” de Lô Borges, também de 72, entre outros -, os Boogarins também apresentam para o seu público o repertório especial do álbum Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta, onde os quatro artistas misturam rock progressivo, jazz e diversas vertentes da música brasileira de maneira surpreendente. Lembro de que, na Maratona Cultural de 2024, aqui em Florianópolis, o repertório do Clube era o show apresentado pelos Boogarins no dia: “Ponta Negra” e “Serra do Mar”, ambas desse disco – e de Danilo Caymmi, foram as que mais me tocaram daquela bela apresentação.

Trago este recorte da carreira da banda porque penso mesmo que essas influências mineiras já começaram a se apresentar em Manual. Lembro até que, na mídia gringa, as relações que fizeram entre as referências dos Boogarins, citavam a bossa nova de Tom Jobim (talvez pelos acordes em sétima maior), mas que, ouvindo hoje – depois de ver os goianos tocando o repertório dos mineiros -, soa muito mais com o que muito fez Lô Borges e Beto Guedes, principalmente nos seus álbuns setentistas. Mesmo que, o próprio grupo, em entrevista na época, também deixava claro que não desrespeitava a relação bossanovista.

Começar

Em 2024, os Boogarins lançam o álbum Bacuri. Gravado no Brasil, em estúdios caseiros dos próprios integrantes da banda, o trabalho parece retomar uma sonoridade mais orgânica, focada mais nos instrumentos e nas vocalizações do que nos efeitos digitalizados que caracterizam os álbuns anteriores. Dessa forma, é como se a banda estivesse novamente acenando para tanto para o Manual, pela sua característica sonora, como para o As Plantas Que Curam, primeiro álbum da banda – que também foi feito, literalmente, em casa. Claro que com outra bagagem de proposta sonora, lírica e instrumental: Bacuri apresenta um Boogarins melhor do que nunca, sempre com algo de novidade e, ao mesmo tempo, se mostrando íntegro com uma busca sonora que já se constrói há mais de uma década.

Com este lançamento deluxe de Manual, podemos relembrar a carreira dos Boogarins e perceber uma consistente música se inventando e se formando fortemente característica, numa resposta/proposta original para o rock, a música brasileira contemporânea e da cena alternativa do mundo todo. Eu, que acompanhei a banda como fã durante toda essa década, acho que poderei dizer o mesmo daqui há mais 10 e 10 anos pela frente.

10

Manual (10th Anniversary Deluxe Edition) – Boogarins

Gravadora: Other Music

Consistência e solidez em um belissimo trabalho. Agora com bônus.

Renan Bernardi

Renan Bernardi

Produtor e comunicador cultural. Responsável pela agenda de shows do Inferninho da Bro Cave, em Florianópolis, e editor da revista O Curiosólogo, fundada por ele em 2024. Já colaborou com o Tenho Mais Discos Que Amigos! e a Revista Artemísia, além de atuar em projetos independentes de jornalismo, assessoria e audiovisual.