Apesar da minha fisionomia estoica e da minha resting dick face, para a surpresa de muitos, eu me considero uma pessoa otimista. Sempre tento ver o “copo meio cheio”. Especialmente nos tempos de hoje, em que tudo parece horrível e os noticiários não param de nos bombardear com guerras e rumores de guerras, pestilências e presidentes alarajados com topetes ridículos fazendo coisas ridículas, procuro me apegar às coisas boas ao meu redor. É difícil — e tem sido cada vez mais —, mas isso me ajuda a não desistir e a seguir adiante pelas pequenas (e às vezes grandes) coisas que nos cercam. A música é uma delas.
Parece ser isso que David Byrne tenta fazer em seu último lançamento ao lado da Ghost Train Orchestra: Who Is The Sky?.
O sucessor espiritual de American Utopia traz no centro uma visão quase apologética de Byrne sobre a vida urbana, especialmente a sua em Nova Iorque, mas de maneira pretensamente universal. Momentos como a faixa de abertura, “Everybody Laughs”, e “My Apartment Is My Friend” parecem comentar essas peculiaridades de viver em uma cidade enorme e cosmopolita — não tão diferente da São Paulo onde habito — que acabam sendo compartilhadas por todos os seus habitantes. Ao mesmo tempo, há a busca pelas pequenas alegrias na imensidão concretada. Mesmo em narrativas como “A Door Called No”, onde Byrne é confrontado com uma negativa absoluta, há sempre a proverbial janela aberta.
Hayley Williams, vocalista do Paramore — que, na modesta opinião deste que vos escreve, fez a única versão realmente boa no álbum tributo de Stop Making Sense — participa de “What Is The Reason For It?”, num respiro muito bem-vindo. Byrne nunca foi um grande cantor — e isso nunca foi um problema —, mas, mesmo em um álbum de curta duração, a voz cansada pela idade às vezes pesa. Não é só a voz de Byrne: o álbum inteiro soa um tanto cansativo. É como aquela pessoa exageradamente otimista e sorridente que insiste em tentar te animar quando tudo o que você quer é curtir a fossa.
Byrne continua fazendo a música que quer fazer e gosta de fazer: dançante, permeada por múltiplas influências, como a cidade que escolheu para viver. Nem sempre ele acerta, mas, aos 73 anos e com o currículo que tem, acredito que esteja mais do que certo em não se importar com o que pensam dele ou do trabalho dele. E — talvez — esse seja o verdadeiro sentido da vida.
Who Is The Sky? – David Byrne
Gravadora: Matador Records
Um álbum alegre para homens brancos idosos que não sabem dançar direito dançarem como se ninguém estivesse olhando.
