Um famoso dito popular diz que não devemos julgar um livro pela capa. Eu constantemente peco nesse sentido. Estou sempre julgando, confesso. Acho que faz parte do ofício de ser crítico/resenhista/baitamatusquelaxarope. Mas há algo que também preciso admitir: eu adoro estar errado. Quando olho para a capa de um disco, de um livro, ou mesmo para um artista, e imediatamente julgo a obra inteira apenas com o olhar. Aí coloco o tal disco para tocar e ele me prova que eu estava miseravelmente errado. Sério, é delicioso. Foi exatamente assim que me senti ouvindo Solace, o EP de estreia solo de Jéssica Falchi.
Antes que venham atrás de mim com tochas e forcados — ou pior, com mensagens mal-educadas nas minhas DMs —, explico-me.
Até pouco tempo atrás, Jéssica tocava na Crypta, famosa representante do black metal nacional. Olhei para a foto dela empunhando uma guitarra ESP e já tinha até o timbre nos ouvidos antes de dar play neste EP instrumental de quatro faixas.

Caros leitores, foi muito bom estar errado.
Vamos começar pela literal capa do trabalho, algo de que falamos poucas vezes por aqui. A ilustração que orna o EP, assinada pela artista e tatuadora Lauren Zatsvar — que também criou as capas dos singles que antecederam o lançamento —, é belíssima. O beija-flor e o lobo-guará estampados ali, antes de mais nada, deixam claro que se trata da obra de uma artista brasileira. Há um diálogo delicado entre força e leveza que se reflete diretamente na música: guitarras que sabem ser densas sem perder a sensibilidade, técnicas sem jamais soarem frias, sempre guiadas por uma busca por aconchego.
A guitarrista cita nomes como Joe Satriani, Steve Morse e Steve Vai como influências. Solace bebe diretamente de trabalhos desses ícones da guitarra, como Surfing with the Alien e Passion and Warfare, além de referências ao metal progressivo instrumental, caso do Liquid Tension Experiment. Soma-se a isso a influência mais contemporânea de Aaron Marshall, guitarrista do Intervals, que participa de “Sweetchasm, Pt. 1”, a primeira parte de uma curta épica que se desdobra na segunda metade do EP.
O que Solace entrega passa longe da agressividade que eu, ingenuamente, imaginei. Em vez disso, o EP se revela um exercício de maturidade, técnica e controle. Cada nota parece escolhida com cuidado, e as melodias respiram entre os licks e as batidas do pedal duplo. Há técnica de sobra — e isso jamais esteve em dúvida —, mas ela nunca se sobrepõe à emoção. Solace impressiona, sim, mas menos pelo virtuosismo explícito e mais pela sutileza. É um disco que não pede para ser julgado rapidamente, e sim apreciado com atenção, sentido nota por nota.
E, sim, mais uma vez, foi muito bom estar errado.
Solace – Falchi
Gravadora: Independente
Se você ainda acha que guitarra instrumental é só ego, este EP existe pra te constranger — educadamente.
A Falchi irá se abrir o show da Katatonia no dia 21 de março no Cine Joia em São Paulo, SP.
Serviço:
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Katatonia
São Paulo – SP
- Abertura com: Falchi
- Data: 21 de março, 2026
- Local: Cine Jóia
- Endereço: Praça Carlos Gomes, 82 – Liberdade, São Paulo – SP
- Abertura das Portas: 18h00
- Censura: 18 Anos
- Garanta seu Ingresso
