Intensidade Calculada – Stelare (2025)

Intensidade Calculada – Stelare (2025)

(Reprodução)

“Não tenha medo do futuro
o que é real te acha até no escuro” 
(Dopamina)

Senti uma mistura de sensações ao ouvir o álbum Intensidade Calculada, que, apesar do título, não parece ter nada de calculado. Pelo contrário: tudo soa como algo sentido visceralmente antes de se tornar acordes que embalam confissões de amor, inseguranças e até mesmo um profundo descontentamento com as assimetrias sociais bem conhecidas por todo CLT cansado.

O nome Stelare marca um processo de amadurecimento iniciado em 2016, ainda como Mosby Persistente, projeto solo idealizado por Felipe Schindler, em Curitiba (PR). Desde o começo, Felipe se permitiu explorar diferentes gêneros musicais sem engessar a Mosby em uma única definição. Nas palavras dele, tocava num estilo “emopb”, transitando entre o emo, o indie e o MPB.

Esse percurso se complementou em 2023 com a entrada de novos membros (Silvio Augusto, Gabriel Luz e Thaina Fernandes), originando a banda Mosby e o álbum Memorabilia, composto por sete faixas de tom mais introspectivo e melancólico. Todavia, foi em 2025 que o grupo passou por sua redefinição mais significativa. Com nova configuração, Felipe e Gabriel, agora acompanhados por Fernando Bonat e Matheus Sodré, chegaram ao novo nome e repensaram profundamente seu processo criativo.

A trajetória da Stelare se reflete no som apresentado no novo álbum. Ao ouvir as faixas, percebe-se um grupo que assume a própria sonoridade com confiança, sem abandonar uma estética crua e despretensiosa, mas trazendo uma voz mais ativa e instrumentos mais presentes em relação ao trabalho anterior.

O ponto de virada parece ser a consolidação da identidade da banda — como na vida, quando somos mais jovens e precisamos lapidar personalidade, gostos e posturas até que, após testar alguns passos e caminhos, conseguimos nos reconhecer com mais clareza. Entender, enfim, quem somos.

Voltando ao disco: em nove músicas, ele toca em dilemas bem conhecidos por muitos jovens adultos. Entre eles, a tentativa de compreender o amor nesse momento de transição em que ficamos em dúvida sobre o que é maturidade suficiente para se relacionar e o que deve ser descartado nesse processo; e também o desafio de se situar enquanto cidadão pertencente à massa, na sua vez de contribuir com o rolo compressor das escalas abusivas de trabalho.

A juventude pulsa nesse álbum, misturando identificação e uma nostalgia que certamente vai acompanhar quem cresceu ouvindo emo nos anos 2000.

O que mais me encanta na música emo é esse tom confessional que sai rasgando o peito. Canções que contam histórias e trazem ao ouvinte a sensação de estar escutando a vivência de um amigo — ou a própria. Intensidade Calculada carrega exatamente esse sentimento. Evoca lembranças como aquele flerte iniciado nas redes sociais; o medo da rejeição no auge da insegurança (seja sobre personalidade, estética ou pertencimento); o date que embrulhou o estômago horas antes de acontecer; ou aquela música ouvida em looping que embalou um coração partido.

Outra característica marcante nas faixas são as menções a lugares cotidianos da cidade dos integrantes, usados como paisagens emocionais nas letras. Isso cria identificação com um eu lírico real, aproximando o ouvinte e convidando-o a conhecer algo íntimo. Como sou uma pessoa de mente fértil, fui pesquisar esses cenários para uma experiência ainda mais imersiva.

Em relação aos clipes, também se percebe uma estética mais natural, com cenários simples e pessoas comuns.

Achei interessante a referência onomatopaica aos quadrinhos no clipe de Me Desculpe Amor, assim como a ideia de um manual de conquista bem-humorado, que remete à tradição dos manuais amorosos da poesia clássica latina, encenando ironicamente como amar e como se portar diante de um interesse afetivo.

Já no vídeo de 6X1 + Troca/Turno, a banda opta por imagens inteiramente em preto e branco: takes de chuva, filas e trajetos intermináveis de ônibus, dinheiro faltando em uma conta que não fecha, além de provocações visuais que dialogam com os clichês repetidos por quem não precisa trabalhar tanto por tão pouco.

Escolhi destacar algumas faixas que traduzem de forma mais pulsante a mensagem que o álbum carrega. A primeira é Dopamina, que funciona como um rito de passagem da era Memorabilia para a nova fase. A música fala sobre amor e o medo das relações casuais baseadas em acordos vazios e impermanência — e até um pouco de love bombing —, abordando a insegurança de ser visto, ou de ver alguém, como nada além de uma dopamina temporária. O trecho que mais me marcou em todo o disco vem dessa canção: “Não tenha medo do futuro / o que é real te acha até no escuro”, por tocar em uma reflexão urgente sobre nosso lugar no mundo e o receio diante do desconhecido.

6X1 questiona um sistema que pratica a cegueira seletiva ao naturalizar rotinas extenuantes de trabalhos que mal garantem o básico para uma sobrevivência digna. Em diálogo direto com o clipe, a música ganha ainda mais potência, como se o ouvinte fosse imerso na agonia de um desabafo que a maioria da sociedade já precisou fazer ao menos uma vez na vida.

Por fim, destaco Sombras no Tempo, que aborda camadas delicadas de uma desilusão amorosa. A faixa fala sobre a coragem de escolher a própria valorização em um relacionamento que não está funcionando — mesmo enquanto ainda dói —, ao mesmo tempo em que expõe a vulnerabilidade nas entrelinhas, como se “avisasse” suas intenções ao interesse amoroso, talvez na esperança de que algo mude antes da ruptura. É uma música que soa como um machucado sensível, mas que pede para puxar o curativo, esteja cicatrizado ou não.

Stelare demonstra potencial para trilhar caminhos muito bonitos em uma trajetória que já é interessante de acompanhar — das nuances mais intimistas de Memorabilia até essa experimentação que envolve os dilemas da maioridade.

O mais bonito é ver como fazem isso de forma sincera e honesta: como quem é apresentado a algo novo e não finge costume, mas compartilha o que realmente atravessa. Com muita intensidade, vale dizer. Calculada ou nem tanto.

7.8

Intensidade Calculada – Stelare

Gravadora: Independente

Intensidade Calculada é feito de canções que contam histórias e trazem ao ouvinte a sensação de estar escutando a vivência de um amigo — ou a própria.

Tati Barreto

Tati Barreto

Nascida e crescida em São Paulo e pertencente à área de humanas desde que se entende por gente. Estudante de Letras, atriz quando possível, escritora de fanfics e uma grande entusiasta de música, artes, comédias românticas, livros de suspense e animes, entre outras paixões. “A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia.” (Ludwig van Beethoven)