Kasabian – Act III (2026)

Kasabian – Act III (2026)
(Reprodução)

Ouvi TV on the Radio esses dias.

Ando usando bastante o DJ de IA do Spotify. Nem sempre ele acerta, mas às vezes ele me joga uma banger do passado que eu não ouvia há anos e eu fico batendo a cabeça no carro, ouvindo feliz da vida. Uma tarde qualquer, caiu “Wolf Like Me” e a sensação foi, digamos, estranha. Não rolou uma nostalgia gostosa, daquelas em que a gente escuta um Arctic Monkeys dos primeiros discos e pensa “nossa, como era bom”. Muito pelo contrário. Tinha alguma coisa naqueles timbres, naquelas estruturas, naquele jeito muito específico de organizar guitarras, sintetizadores e batidas que me soou extremamente datada.

Era um som que ficou preso naquele lugar e naquele tempo.

Foi tudo muito esquisito. Foi como abrir uma cápsula do tempo e, ao invés de encontrar uma lomografia — quem lembra? — encontrar um meme sem graça.

Kasabian - Act III (2026) 2

Pensei com meus botões: “Que ridículo deve ser fazer indie rock no Ano de Nosso Senhor de 2026.”

Aí saiu o novo disco do Kasabian e eles estavam fazendo exatamente isso.

É uma verdadeira tragédia shakespeariana gostar dessa banda hoje em dia. Desde a saída de Tom Meighan — que, convém dizer, foi merecida — o Kasabian é uma banda procurando desesperadamente uma razão para continuar existindo. E o problema não é ter perdido o vocalista. É que, junto com ele, toda a personalidade da banda simplesmente evaporou.

ACT III sofre dos mesmos problemas de falta de direção e personalidade que marcam os discos lançados desde 48:13. O mais óbvio é que não há um single claro. Não tem aquela banger com cara de Kasabian, com o baixo na cara e um riff imbecil que te faz ter vontade de pular e arremessar seu copo de cerveja no ar. Talvez seja o melhor lançamento da banda desde 48:13, mas isso não significa grandes coisas, já que quase tudo que veio depois foi atroz.

Há ecos do velho Kasabian em “SOULMATE” e “HYPER//RISING”, mas são apenas ecos. O resto do álbum parece um pot-pourri de todos os chavões das duas últimas décadas, com uma dose meio exagerada de fuzz. “SAY YOU (CLOSER)” é, com certeza, uma das coisas mais inócuas que a banda já escreveu e gravou. Começa com um coro e vira uma baladinha que poderia figurar em qualquer álbum daquele rapaz ruivo cujo nome não precisamos mencionar.

E não está em pauta a capacidade da banda. Serge Pizzorno é um vocalista extremamente capaz e, de certa forma, sempre foi muito mais a cara do Kasabian do que Tom. O problema é outro.

Falta alguma coisa.

Falta swagger. Falta tesão. Falta aquela coisa maravilhosamente arrogante que apenas bandas surgidas da classe operária de cidades industriais britânicas conseguem entregar. O Kasabian era uma banda que entrava em cena como se tivesse acabado de descobrir a fórmula definitiva para fazer um estádio inteiro pular. Havia uma energia quase infantil naquilo — uma confiança desproporcional ao tamanho das ideias, que era justamente o que fazia tudo funcionar.

Hoje, essa confiança parece ter evaporado.

E talvez seja esse o problema de ACT III: não é que o Kasabian tenha envelhecido. É que ele parece não saber o que fazer com o fato de ter envelhecido. A banda ainda sabe tocar, ainda sabe produzir, ainda sabe escrever músicas decentes. Só não parece mais saber por que alguém deveria se importar.

Enfim, falta Kasabian.

5.5

ACT III – Kasabian

Gravadora: Sony Music

Eu já não esperava grande coisa. Mas, puta merda, também não precisavam provar que eu estava certo.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.