Eles prometeram ser breves, mas voltaram. E eles ainda têm muito a dizer.
No início do ano, resenhei o excelente Vamos ser breves, estreia do supergrupo de punk português Mães Solteiras. Alguns meses depois eles voltam com mais um lançamento igualmente furioso. Dessa vez, eles tocaram num nervo, digamos, pessoal. Um belíssimo chute no meio do meu nervo ciático.
Agora, em Puxa-Vida, as canções são mais melódicas, melhor construídas e, de certa forma, menos cruas. Definitivamente houve um refino muito interessante — tanto na composição das canções quanto na produção — entre o primeiro lançamento e este. Apesar do refino, a identidade estabelecida no primeiro álbum ainda está presente. A bateria nervosa, os riffs frenéticos e os timbres inconfundivelmente punks estão lá. Também ainda está presente a voz furiosa de Quim Albergaria, que deste vez grita e canta em igual medida.
O álbum é cheio de momentos em que é impossível não bater a cabeça ou sair espontâneamente fazendo um two-step pela sala de casa, como o breakdown da curtíssima “Dia de S. Falecer”, o solo de “Sarah Connor”, ou refrão de “O falo fala”. Senti falta dos refrões maravilhosos da estreia, mas fui recompensado com uma clara evolução na cozinha da banda e com melodias mais complexas. O espírito e a sonoridade punk ainda estão lá, com vários ecos de clássicos — principalmente de Dead Kennedys — porém com um charme a mais.
Porém, tão importante quanto o instrumental, as letras carregadíssimas de significado. As metáforas são escancaradas, mas, assim como nas canções do primeiro álbum, são questões tão urgentes que é absolutamente é esperando natural tê-las arremessadas violentamente em nossas caras.
De certa forma, as letras parecem ainda mais atuais e urgentes. Muita coisa aconteceu em 2026 e o quarteto certamente estava prestando atenção. A masculinidade tóxica (“O falo fala”), o imperialismo norteamericano (“Branco, Azul e Sangue”), a famigerada cultura do empreendedorismo (“Eu vou ser como o CEO”). Há ainda um espaço para a incrível versão de “Era de noite e levaram”, cantiga de Zeca Afonso, uma figura importantíssima da resistência portuguesa à ditadura salazarista.
Porém, em meio ao terror existencial que nos cerca — e que o Mães Solteiras sintetiza tão bem — o álbum tocou em um ponto quase visceral pra mim. Entre Sarah Connor no Starbucks e desistindo de lutar contra a inteligência artificial e a despedida na última faixa, “Sobe elevador”, eu fui levado para um lugar que eu particularmente sempre odiei. Como infoproletário — um programador que escreve código durante o dia e à noite, tal qual o Batman, se veste com uma camisa preta de banda, e escreve sobre música, me vi naquela pequena morte diária de ter que abandonar tudo que eu sou e vestir uma máscara corporativa pra sobreviver as oito horas diárias no ambiente empresarial. Foi sofrido. Foi dolorido.
Se nem Sarah Connor resistiu à luta contra as máquinas do capitalismo, quem dirá eu, um mero trabalhador?
Aí que vem a grande diferença deste álbum para o primeiro. Em Puxa-Vida, o Mães Solteiras nos entrega alento. Primeiro com “Dá licença” e depois com “Junta”. A primeira fala do quão importante é sermos quem nós somos, sem pedir licença. A segunda nos lembra que somos mais fortes juntos.
Estas últimas semanas tem sido bem difíceis para todos nós que somos brasileiros e que percebemos o quão infame é a ascensão da extrema-direita na política e nas nossas vidas. Mas estamos juntos. Compartilhando postagens, virando votos. Todos, à sua maneira, lutando juntos.
Puxa-Vida – Mães Solteiras
Gravadora: Independente
Por favor, voltem mais vezes, rapazes. Entrem. Fiquem à vontade. A casa é toda de vocês.
