No Joy – Bugland (2025)

No Joy – Bugland (2025)

(Reprodução)

Já se passaram cinco anos desde o lançamento do último álbum completo da No Joy, Motherhood. Também se passaram cinco anos desde que a banda se tornou um projeto solo da canadense Jasamine White-Gluz, ignorando completamente a existência de Laura Lloyd, cofundadora do grupo. Nesse meio-tempo, vieram vários EPs e singles, incluindo uma regravação de Pure Shores, canção do girl group britânico All Saints que integra a trilha sonora de A Praia, filme de Danny Boyle. Aos poucos, a irregularidade que marcou Motherhood foi se dissipando e, agora, com Bugland, parece que a No Joy reencontrou um lugar sólido.

O shoegaze que definiu os primeiros trabalhos da banda se diluiu entre outras influências. Há ecos do esquisitíssimo EP No Joy/Sonic Boom (2018) e traços de cada EP e single lançados nesse período de entressafra. Logo de cara, as duas primeiras faixas — Garbage Dream House e a faixa-título, Bugland — constroem o cenário sombrio que tornou a banda famosa. A parede de som ainda está lá, mas as guitarras empilhadas umas sobre as outras deram espaço para outros arranjos e elementos eletrônicos que dissipam a cacofonia costumeira do gênero.

O clima, como sempre, é escuro e úmido, como uma pista de dança de um inferninho qualquer — mas há luz aqui. Uma luz estroboscópica e intensa aparece entre os temas e os títulos das músicas. A melancolia, às vezes, se torna doce e a sua intensidade se perde com o brilho.

Muitas faixas já eram conhecidas antes do lançamento oficial, lançadas como singles nos meses que antecederam a chegada do álbum na semana passada. No conjunto, as novidades soam ainda mais frescas e funcionam melhor quando amarradas pela narrativa sonora de Bugland. A agridoce “I Hate that I Forget What You Look Like” é daquelas músicas que dão vontade de voltar ao início assim que terminam, enquanto o encerramento, “Jelly Meadow Bright: — a faixa mais barulhenta do disco — lembra que, apesar da nova roupagem, ainda estamos diante da mesma banda que conhecemos.

Em Bugland, Jasamine White-Gluz parece ter encontrado o equilíbrio entre a densidade atmosférica que sempre marcou a No Joy e a experimentação que marcou seus últimos trabalhos. O resultado é um álbum coeso, que não se apoia apenas na nostalgia shoegaze, mas constrói seu próprio espaço entre o dream pop, o trip hop e camadas sutis de eletrônica. Não é um retorno às origens, mas um avanço calculado — um disco que transforma a penumbra em algo vivo, pulsante e inesperadamente luminoso.

8.7

Bugland – No Joy

Gravadora: Hand Drawn Dracula Records

Frio e úmido, como de costume, mas há um lampejo de luz e calor entre as frestas da parede de som.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.