Resenha: Ozzy Osbourne – No More Tears (1991)

Resenha: Ozzy Osbourne – No More Tears (1991)

(Reprodução)

Ozzy se foi, mas o som ficou. Em homenagem ao Príncipe das Trevas, revisitamos este disco essencial da sua trajetória no metal.

Depois de dois álbuns irregulares, mais problemas com drogas e reabilitação, trocas de farpas com o tele-evangelista Jimmy Swaggart e tantos outros perrengues, Ozzy Osbourne voltou à forma. Em 1991, com a notória ajuda de Deus — Lemmy Kilmister —, ao lado do guitarrista Zakk Wylde, do baixista Bob Daisley e do baterista Randy Castillo, Ozzy lançou No More Tears. O resultado não foi apenas um retorno do Príncipe das Trevas à sua melhor forma, mas também um dos grandes momentos de toda a discografia do Madman.

O álbum abre com “Mr. Tinkertrain” e um riff poderoso de Wylde. Em No Rest for the Wicked, o recém-contratado guitarrista ainda parecia meio contido, à sombra das lendas Randy Rhoads e Jake E. Lee. Aqui, ele já apresenta ao mundo o timbre e os harmônicos artificiais característicos que o associariam permanentemente à discografia de Ozzy nos anos 90 e 2000, e também aos seus trabalhos solo — especialmente com a Black Label Society. As três primeiras faixas foram compostas com Lemmy, mas é na terceira, “Mama, I’m Coming Home”, que vemos Ozzy e sua banda realmente brilharem pela primeira vez no álbum. Zakk Wylde merece destaque pelo arpejo de violão que acompanha a música toda, além do solo de guitarra e das harmonias vocais. Mas é a entrega de Ozzy que realmente faz a faixa brilhar. Não é uma de suas performances mais incríveis tecnicamente, mas é uma das mais marcantes.

Um fato que se perdeu no tempo é que este álbum era pra ser o derradeiro de estúdio de Ozzy. A turnê que se seguiu — apropriadamente chamada No More Tours — seria sua despedida dos palcos e da música. Neste contexto, “Mama, I’m Coming Home” soa ainda mais como uma despedida. É uma faixa cheia de coração e sentimento — e, apropriadamente, ouvida milhares de vezes por milhões de fãs ao redor do mundo esta semana, por ocasião do falecimento da lenda.

Logo no início, No More Tears já se consolida como um dos melhores discos da carreira do Príncipe das Trevas — e aí vem a faixa-título, a joia da coroa do álbum: “No More Tears”. A introdução no contrabaixo, composta pelo colaborador frequente Mike Inez, é uma das mais icônicas e memoráveis do rock e do metal. A simplicidade do duelo entre os versos cantados por Ozzy e a resposta de Zakk Wylde na guitarra (puta que pariu, que riff!), sempre com o baixo amarrando tudo, dá o tom perfeito à faixa. Os teclados, sempre presentes, parecem estar prontos para nos surpreender a cada compasso. No meio da faixa, tudo fica (ainda) mais soturno, antes de um breve silêncio e um piano. Uma voz distorcida — como se saísse de um rádio — fala frases soltas e, aos poucos, a guitarra volta à cena. Devagar, uma nota por vez, mantendo o clima intimista que o entrelúdio construiu, até ligar o overdrive no 11 e entregar um dos solos mais incríveis e memoráveis da história do metal (puta que o pariu, que solo!).

“No More Tears” não é apenas a faixa mais marcante do álbum — é uma das melhores já gravadas por Ozzy. Para quem estava pronto para pendurar as chuteiras, é aqui que o Príncipe das Trevas parece preparado para sair de cena no auge.

Ah, as pequenas ironias do destino…

Apesar de bem menos memorável que o Lado A, a segunda metade do disco é tão boa quanto a primeira. Além da faixa de abertura, da excelente “I Don’t Want to Change the World” — que rendeu a Ozzy um Grammy por sua versão ao vivo em 1993 — e de “Mama, I’m Coming Home”, a parceria com Lemmy ainda rendeu “Hellraiser”, uma das músicas mais memoráveis do álbum. Ainda há espaço para uma homenagem ao time do coração, o Aston Villa (“A.V.H.”), e para a incrível “Road to Nowhere”, que encerra o disco com dignidade.

Relançado em 2002, o álbum ganhou duas faixas extras: “Don’t Blame Me” e “Party with the Animals”, que, sinceramente, não fazem muita falta na edição original — mas são boas canções.

Mais de três décadas depois, No More Tears continua sendo um marco. Um disco coeso e cheio de peso — musical e emocional. Um álbum que capturou Ozzy em um momento de clareza criativa absoluta. Ele dizia estar cansado, pronto para se despedir — mas voltou. Ainda bem. Vieram outros discos, outras canções, outros problemas. Mas, se eu tivesse que escolher um álbum para resumir o que Ozzy Osbourne foi — excêntrico, vulnerável, barulhento, inspirado — certamente seria No More Tears. O Madman estava em plena forma, cercado por uma banda incrível e com letras assinadas por ninguém menos que Deus. Uma despedida anunciada que não se concretizou — mas que agora, com sua partida definitiva, soa mais poderosa do que nunca.

9.8

No More Tears – Ozzy Osbourne

Gravadora: Epic Records

Com uma banda afiada e letras escritas por ninguém menos que Deus, Ozzy possivelmente nos deu o melhor álbum de sua carreira solo.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.