Resenha: Marcelo Gross – Chumbo/Pluma (2017)
Qual a medida para um artista?
Marcelo Gross engrossava as fileiras de uma das bandas mais atuantes e longevas do mercado brasileiro independente, a Cachorro Grande.
De uma maneira no mínimo estranha, o guitarrista um dos fundadores da banda gaúcha foi demitido do grupo.
Embora não nos caiba aqui fazer um: “o que aconteceu”, o guitarrista antes da sua “saída” tinha lançado “Chumbo/Pluma” em 2017 que teve o seu lançamento em cd duplo e vinil pelo sempre atuante Selo 180 Fonográfico.
A carreira solo de Gross tem sido uma constante desde seu “debut” em “Use o Assento para Flutuar” de 2013 e que encontrou seu sucessor com o atual trabalho.
Com uma temática que divide canções mais “pesadas” (Chumbo) e mais leves (Pluma), Gross apenas faz de sua carreira solo, uma extensão natural do Cachorro Grande (até aqui).
Com 9 faixas, “Chumbo” é irregular, assim como os últimos trabalhos da sua ex-banda.
“Reconstruindo a Cidade” e “Me Recuperar” são canções medianas. Não saem do lugar, e tem refrãos sonolentos. A recuperação vem “Não Vá”, uma canção que parece uma declaração pessoal. Seja de perca ou de abrir o coração, é uma letra que corrobora a verve do guitarrista para desenvolver boas letras.
Daí vem “Purpurina”. Boa levada, bons músicos, mas outra letra apenas ok.
E nem os andamentos com levadas obviamente calcadas em ritmos souls e inserções precisas salvam a canção.
“Alô Liguei” poderia ser a redenção da metade do primeiro disco do álbum duplo, mas não é. Mais um amontoado de clichês nas letras, um rico time de músicos, com boas ideias desperdiçadas.
A coisa não melhora em relação as letras até a nona faixa. Ideias recicladas, sonoridade rica e até meio vintage, mas não salva “Chumbo”.
Em “Pluma” a outra metade com 12 faixas, Gross começa como um crooner bêbado e inspirado, mas, consegue cometer os mesmos erros na métrica e na feitura da letra. “Bebel” é uma linda ideia mal executada.
“Maggie” é um alento em seu início, mas as rimas são constrangedoras. Daí vem “Morangos e Maçãs”, claramente inspirada em Jupiter Maçã, daí sim, algo relevante! Um violão lindo, um ritmo cadenciado, mas que ainda sim, carece de algo mais profundo na letra.
Parece que o tempo todo Gross corre atrás de uma formula na feitura das letras, mas não deixa as mesmas em um tempo de maturação. Não as deixa tomar forma para então, mostrarem-se completas e cheias. Como o suor que brota da mão do trabalhador após uma lapidação, Gross parece ter sempre a pressa dos iniciantes. Seus diamantes ficam sem o brilho que o artista possui como guitarrista. O que ocorre como letrista é uma sombra pálida de seu talento.
Um disco que poderia ser mais enxuto, talvez tenha exaurido a imaginação e a clareza de seu letrista em tentar despejar todos os seus anseios em 21 canções.
O excesso prejudicou em muito o resultado.
Ótimos músicos nos 2 discos, letras abaixo da média, um vocalista cansado e um trabalho mediano de quem tem muito talento .Ficamos na expectativa de uma vindoura redenção.
Qual a medida para um artista?
Em alguns casos, se levar mais a sério…
CHUMBO/PLUMA – Marcelo Gross
Gravadora: Selo 180 Fonográfico
Marcelo Gross talvez não tenha levado tão a sério a tarefa de criar um álbum duplo..