Resenhas

Resenha: Mogwai – The Bad Fire (2015)

Ao ouvir o mais recente álbum da Mogwai, me perguntei: Existe algo um álbum perfeito? A perfeição não existe. Claro, como conceito e ideal, mesmo que intangível, é possível falar em perfeição. Porém, ela continua intangível. Não existe um quadrado ou um círculo perfeitos na natureza e qualquer produto artístico, por mais sublime e belo que possa ser, ainda tem as suas imperfeições.

Não, não existe um álbum perfeito.

Aí me aparece este mais recente lançamento do grupo escocês. The Bad Fire, o décimo primeiro álbum da veterana banda inicia com a dupla “God Gets You Back”, primeiro single saído do álbum, e “Hi Chaos” . Já de cara, essas duas faixas acertam todas as notas do cânone do post-rock. A primeira começa com sintetizadores e vai crescendo a cada compasso, no que parece algo saído da trilha sonora de um filme dos Anos 1980 composta pelo Vangelis. A tensão vai se acumulando até estourar numa chuva de agudos. Então entram os graves distorcidos do baixo, vocais etéreos e a bateria. Ao final da canção, somos presenteados com uma das melhores faixas já produzidas pela banda.

“Hi Chaos” segue como a sequência lógica do álbum, um verdadeiro tratado sobre a estética do gênero. O crescendo estabelecido desde o início da faixa culmina em um auge com instrumentos erráticos e distorcidos e uma bateria frenética. Os pratos são atacados pelo baterista Martin Bulloch com violência, ditando a marcha constante que caminha a passos firmes para o fim da faixa.

O título parece uma espécie de saudação ao caos, como se ele fosse uma entidade material. Pareado com o nome do álbum, parece ser muito propício saudar o caos nestes tempos incertos. A banda é famosa por seus títulos de música curiosos, que muitas vezes não tem nada a ver com a letra ou com o tom da faixa, mas que são geniais mesmo assim. Em The Bad Fire, os destaques ficam para a quase pop “Fanzine Made of Flesh”, “Pale Vegan Hip Pain” e “If You Find The World Bad, You Should See Some of the Others”, cujo título extenso faz jus a seus mais de sete minutos de duração.

Com essas duas últimas, no meio do álbum há uma descendente. Tudo fica mais introspectivo e sereno, com destaque para “18 Volcanoes”, que conta com uma distorção espessa, soando como algo saído de um álbum do My Bloody Valentine. Na sequência, perto do final do álbum, “Hammer Room” e “Lion Rumpus” voltam ao tom estabelecido no início agraciando nossos ouvidos com peso, mas sem abrir mão da ambiência quase etérea.

“Bad Fire”, ou fogo mau, em tradução livre, é uma expressão escocesa que remete ao inferno cristão. O significado talvez não seja intencional e pouco tem a ver com o momento político tumultuoso que vivemos nestes meio de década onde é tudo incerto. Também devemos considerar o período caótico que a banda viveu durante a gravação do álbum. Entre inúmeros problemas pessoais, familiares e de saúde, a banda refugiou-se nestas músicas e usou delas como válvula de escape para tantos problemas e criou um dos melhores álbuns da consagrada carreira da banda.

Voltando ao meu questionamento inicial: Existe um álbum perfeito? Se existe, The Bad Fire é perfeito? Não, longe disso. Porém, considerando todas as coisas, especialmente o momento vivido pela banda, é claro que eles chegaram muito perto disso. É um álbum digníssimo da trajetória da cultuada banda escocesa. Não há uma música ruim no álbum, embora hajam momentos mais fracos. Em seus momentos de mais brilho, a Mogwai brilha muito, e com muita força.

10

The Bad Fire – Mogwai

Gravadora: Rock Action Records/Temporary Residence Limited

A Mogwai entrega uma experiência sublime e próxima da perfeição.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.

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