Sempre fui fã da estética dos cariocas da Moptop, embora nem sempre curtisse o som da banda. A verdade é que, lá pela segunda metade da primeira década deste século, eu já estava saturado de qualquer coisa que levasse o rótulo indie e preferi seguir ouvindo outras coisas. Uma década e meia se passou, e eles voltaram. Anunciaram shows e lançaram Long Day, um disco inteiro de inéditas — em inglês!
Talvez essa escolha venha do fato de metade da banda ter deixado o Brasil por países anglófonos — o vocalista e compositor Gabriel Marques mora hoje em Seattle, nos Estados Unidos, e o guitarrista Rodrigo Cury está na Austrália. Ou talvez seja pela velha ideia da suposta universalidade do idioma bretão.
O fato é que, depois do estranhamento inicial, tudo soa surpreendentemente natural. Após a curta introdução da primeira faixa, “Last Time”, a guitarra entra casada com o baixo e entrega um som absolutamente familiar — mas estranhamente diferente da Moptop que conhecíamos. A estética indie ainda está lá, mas as referências mudaram. E com razão: quinze anos se passaram. O mundo mudou, e a Moptop mudou junto.
A produção é enxuta e limpa, dando espaço para os arranjos respirarem. Há uma boa dose de metais extremamente bem colocados e de ótimo gosto, enriquecendo as melodias. Tecnicamente, a banda soa melhor do que nunca, mas a maior evolução está mesmo nos temas abordados. A maturidade veio com força, e os anseios da juventude deram lugar à perda, ao trauma e às questões existenciais do mundo moderno. “Ghosts”, talvez a melhor faixa do álbum, fala abertamente sobre lidar com feridas e os fantasmas do passado. Já “Tightrope”, o primeiro single, é um relato em primeira pessoa sobre receber a notícia de uma perda irreparável.
Apesar disso, o álbum nunca abraça uma melancolia tristonha ou derrotista. Os temas são densos, às vezes pesados, mas na voz de Gabriel, a Moptop parece querer encará-los de cabeça erguida. Long Day soa exatamente como o nome sugere: um registro maduro, um tanto melancólico, que tenta dar conta do tempo que passou. O som continua ancorado no rock alternativo dos anos 2000, com guitarras limpas e vocais contidos, mas agora carrega um peso existencial que antes não estava lá. É como se a banda tivesse voltado sem tentar parecer jovem de novo — o que, na minha opinião, é um mérito.
Long Day não é um disco feito para virar a mesa ou conquistar a Geração Z. É uma obra de meia-idade — no melhor sentido possível. Segura, honesta e ciente de suas limitações e de suas forças. Falta o senso de urgência dos Anos 2000, mas sobre algo mais raro: a serenidade de quem sobreviveu ao tempo, aos modismos e a si mesmo. Se esse for o último capítulo da Moptop, é um encerramento extremamente digno. Se for um recomeço, é um excelente ponto de partida.
Long Day – Moptop
Gravadora: Yeah Rock Records
Um retorno maduro, introspectivo e honesto. Rock alternativo com peso existencial, sem forçar juventude.
