Resenhas

Resenha: Primator – Involution (2015)

O álbum de estreia da banda paulistana Primator chegou até as minhas mãos como muitos outros, entre cervejas na casa de Luciano Vitor, mais conhecido como “Carioca”, muso, editor e fundador do Underfloripa.

“Carioca, o quê tem pra mim hoje?”

“Ah, cara. Peraí. Deixa eu ver.”

Ele se virou e começou a mexer num baú enorme cheio de CDs e discos que está num canto de seu escritório em seu apartamento no Kobrasol. Depois de alguns instantes, ele esticou um CD de capa azulada com desenhos agressivos e o logo ainda mais agressivo.

“Pega esse aqui: ‘Primator’!”

Ele não esconde o desdém atrás de seu sotaque fluminense.

“Caralho, Carioca! Outro de metal? Eu não aguento mais! Não dá pra ser um desses aí d’Os Marias ou d’Os Magaivers ou qualquer outro?”

“Cara, você é o único redator que sobrou que sabe alguma coisa de metal. Esse aqui tava no fundo do baú, precisamos desafogar a pauta!”

“Tá bom, tá bom…”

E lá vou eu, mais uma vez, completamente resignado, ouvir e resenhar um álbum de metal. Tentei vir de cabeça fresca, não me prender em preconceitos e tentar aproveitar e, talvez, conhecer uma nova banda. Vai que o disco é bom, né?

Não era.

Mas, muito pior que não ser um bom exemplar do metal, eu fui jogado em contraste com minha total incompreensão sobre o gênero. Ele é ótimo, mas eu não me convenci. A crítica especializada encheu a banda e este trabalho de louvor e eles são (ou eram) patrocinados pela Wacken Foundation, uma fundação alemã que visa fomentar projetos de metal, hard rock e rock pesado no geral. No papel e numa primeira audição, o álbum parece incrível, mas, para os meus ouvidos, parece um grande mais do mesmo.

Começamos pela voz. O vocalista Rodrigo Sinopoli canta bem demais, mas no fundo é apenas um imitador de Bruce Dickinson, vocalista mais conhecido do Iron Maiden. Com um alcance vocal invejável, agudos incríveis e um estilo agressivo, por vezes parece que não há personalidade em sua voz. Uma pena, sinceramente. O mesmo pode se dizer sobre o instrumental. Vem uma boa leva de tudo aquilo que já estamos acostumados, pedal duplo, harmônicos artificiais, solos de derreter a cara… Só faltou o baixo cavalgado à Steve Harris pra se dizer que era um álbum de metal oitentista. O instrumental é extremamente bem executado, nem cantado, há uma boa estrutura no disco, e, ao contrário do trabalho de muitos amadores já resenhados aqui, a produção é boa, com bons timbres e bastante peso. Um trabalho bem feito, mas sem alma por demais.

No fundo, o Primator sofre do grande problema que preda todo o gênero desde que ele se estabeleceu no mainstream. As amarras estéticas são fortes e firmes demais. Não há espaço para experimentar, fazer diferente ou mesmo sair da linha. A banda segue uma estrutura formulaica e, como caiu no gosto dos especialistas, talvez seja isso mesmo que eles estejam buscando: Um espaço confortável e facilmente reconhecível. Para nós outros, meros mortais, ouvintes de rock, indie e outros gêneros não-metal, parece um saladão com um gorila na capa e um logo com fonte agressiva.

5.8

Involution – Primator

Gravadora:

Estes patrocinados pela mítica Wacken Foundation são um exemplo clássico do deserto criativo que se tornou o gênero no Século XXI.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.

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