É 2060, e Sleep Token é considerada a banda mais influente do mundo.
Avós recontam aos netos as histórias de um tempo quase mítico: tardes em bares de rock no ABC, a ansiedade pelo lançamento do novo single do Sleep Token, a espera pelos primeiros shows – na Audio, no Espaço das Américas, depois no Allianz, e finalmente dois dias lotados no Autódromo de Interlagos – 200 mil pessoas cantando, chorando, presenciando em primeira mão uma inaudita revolução cultural. E então um corneteiro solitário num site de música brasileiro é descoberto, pra sempre descreditado por um simples motivo: ter dito o impensável: que Sleep Token presta muito pouco, e seu disco, Even in Arcadia era, até então, o maior testamento disso.
Esse dissenso na percepção crítica gira em torno de um ponto central: a maneira como Sleep Token lida com a mistura de gêneros. A crítica especializada costuma elogiar a banda por seu ecletismo – pela fusão de metal moderno, pop melódico, R&B atmosférico e elementos eletrônicos. Mas Even in Arcadia não combina esses elementos em função de um propósito composicional claro. O álbum não constrói uma linguagem própria a partir das influências que mobiliza; apenas as alterna. As músicas avançam em blocos: cada um com uma textura, um clima, um gênero – que logo é abandonado por outro, sem que se crie entre eles uma continuidade. Há transições, mas elas são quase sempre técnicas, nunca estruturais. Não se trata de levar uma ideia até o limite, mas de multiplicar contrastes, um após o outro – tem até um sax Kenny G. largado em algum lugar desse disco.
O resultado é uma escuta marcada por descontinuidade. Ao invés de composições que se desenvolvem, há uma sequência de momentos intensos, que não necessariamente respondem uns aos outros. Uma faixa pode começar com vocais delicados sobre piano espaçado, saltar para um trecho eletrônico mais pulsante e terminar em guitarras pesadas e refrão épico. Essa alternância poderia ser expressiva, se viesse como consequência de uma trajetória interna, mas o que se percebe é uma sucessão de efeitos que não se encadeiam de fato. Há uma busca constante por impacto, mas não por construção.
Essa lógica de montagem tem consequências para o sentido das canções. Os temas recorrentes – dor, desejo, abandono, transcendência – exigem tempo e atenção para serem explorados. São temas que pedem elaboração e ressonância, e que só ganham força quando a música permite que se articulem. Mas Even in Arcadia prefere saltar de uma emoção à outra com pressa. Cada seção parece projetada para marcar uma sensação distinta, mas nenhuma é verdadeiramente escutada ou sustentada pela seguinte.
A isso se soma um problema de ordem sonora: a mixagem do álbum, com sua compressão generalizada e estética de loudness constante, opaciza os timbres e transforma tudo num enleado indistinto. As dinâmicas são achatadas, as camadas se atropelam, e a sensação é de ouvir uma massa sonora homogênea, onde nenhum elemento respira. Não há punch, não há definição – apenas uma parede de som que pretende soar grandiosa, mas que, de tão nivelada, enfraquece tanto os momentos de impacto quanto os de recuo: o que é alto soa tão alto quanto o que é baixo, os urros e os cochichos soam com o mesmo volume.
Essa disjunção se acentua ainda mais quando se observa o contraste entre o conteúdo emocional das letras e a estética da apresentação da banda. Sleep Token cultiva um imaginário visual ritualístico, marcado por máscaras, anonimato e uma mise-en-scène que se pretende mística. No entanto, o que se constrói ali não é mistério, mas uma estilização pueril do oculto. Espadas cerimoniais, poses coreografadas, encenações sobrecarregadas e um vocabulário imagético próximo ao de videogames ou quadrinhos de fantasia esvaziam qualquer possibilidade de densidade simbólica. A tentativa de representar o “sagrado” – ou uma espécie de devoção simbólica à música ou a uma entidade maior – se resolve numa alegoria frágil, quase paródica. O projeto visual infantiliza a experiência estética, encobrindo com teatralidade o que as músicas tentam sugerir em tom íntimo. A performance se fecha sobre si mesma, protegida por camadas de alegoria superficial, enquanto a música tenta, em vão, sugerir proximidade emocional. Essa tensão entre exposição e disfarce, entre confissão e cosplay, compromete a credibilidade do gesto artístico. A força de uma obra não está na soma dos seus materiais, e sim no tipo de relação que se estabelece entre eles. Quando essa relação não aparece, ou é sistematicamente evitada, resta apenas uma sucessão de fragmentos expressivos, cada um com sua intensidade própria, mas sem correspondência nem escuta. E um disco que não constrói relações, por mais que busque comover, tende a deixar o ouvinte atento mais entediado que movido – e isso, para um tearjerker como esse, é um defeito fatal.
Even In Arcadia – Sleep Token
Gravadora: RCA Records
A força de uma obra não está na soma dos seus materiais, e sim no tipo de relação que se estabelece entre eles.
