Sophia Xablau & Felipe Vaqueiro – Handycam (2025)

Sophia Xablau & Felipe Vaqueiro – Handycam (2025)

(Reprodução)

Há algo de essencialmente autêntico em Handycam, álbum fruto da parceria entre Sophia Xablau — aquela da Enorme Perda de Tempo — e o compositor e multinstrumentista soteropolitano Felipe Vaqueiro. Dito isto, é um disco tão irregular quanto a pronúncia do idioma bretão de ambos na faixa de abertura, “Lungs Full of Air”.

O problema de fato é a inconsistência. Um álbum precisa ter uma unidade temática, de estilo, de som. Sophia e Felipe falham nesse propósito e juntam onze canções que não conversam entre si. Desde os anos 1950, quando Frank Sinatra ajudou a consolidar a noção de “álbum conceitual” — um trabalho pensado como experiência coesa, em vez de uma simples coleção de faixas soltas — essa expectativa se tornou parte essencial do formato. O disco, afinal, é um projeto artístico, uma narrativa sonora. E quando essa narrativa se perde, o resultado soa mais como uma playlist do que como obra pensada de fato.

Um exemplo paradigmático disso em Handycam é a dobradinha “Cinema Total” e “Cinema Brasileiro”. As faixas ficam lado a lado no início do álbum, o que causa estranhamento porque, apesar do nome similar, são completamente diferentes. A primeira é doce, uma narrativa que forma um dos pontos altos do álbum. A segunda, uma composição com riff chocho ao fundo, guitarras cheias de fuzz e repetições mil. Parece que a faixa foi composta e produzida só pra poder repetir o chavão que “o cinema brasileiro é foda pra caralho”.

Sim, ele é. Mas o que isso significa?

Pego estas duas canções como um paradigma que se repete ao logo de todo o álbum. As faixas não conversam uma com a outra e, colocadas em sequência, parece que foram escolhidas a esmo, como se alguém tivesse feito uma playlist qualquer e só jogou uma série de faixas desconexas uma depois da outra.

É a lógica da mixtape descrita em Alta Fidelidade às avessas: organizar músicas mais pelo efeito imediato do contraste do que pela construção de uma narrativa.

Um álbum não deveria ser como lista do Spotify feita no ônibus; ele precisa dar a sensação de percurso, de arco, de começo, meio e fim. Aqui, ao invés de um fio condutor, temos apenas colagens aleatórias que se anulam, sem muita coerência e nada de sinergia.

Ainda assim, é inegável que Handycam carrega um sentimento genuíno, fruto da entrega de Sophia e Felipe em todas as faixas. Há uma notável fragilidade, sinceridade, e alguns momentos que brilham, mesmo que isoladamente. Mas autenticidade, por si só, não sustenta um álbum. Sem a costura que transforme essas ideias dispersas em um todo coeso, o resultado fica preso no meio do caminho: verdadeiro, sim — mas também incrivelmente frustrante.

5.9

Handycam – Sophia Xablau & Felipe Vaqueiro

Gravadora: Risco

Bonito — lindo às vezes — mas desconexo e desencontrado.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.