Sorosoro – Eu e você ou tudo o que eu não quero que você saiba (2026)

Sorosoro – Eu e você ou tudo o que eu não quero que você saiba (2026)

(Reprodução)

Vou começar esta resenha do avesso.

Ou melhor, pelo fim. Normalmente a gente faz um preâmbulo, fala da banda, talvez umas notas de produção… Mas hoje quero começar direto pelo primeiro álbum da Sorosoro, Eu e Você ou tudo o que eu não quero que você saiba. E vou começar justamente pelo final dele.

É preciso reconhecer a força — e a coragem — de qualquer banda que não se chama Mogwai ou Godspeed You! Black Emperor ao se arriscar, em pleno Ano de Nosso Senhor de 2026, a compor e gravar uma épica de oito minutos e dez segundos. “Jogo da Galinha”, penúltima faixa do álbum, é exatamente isso: uma épica. Três guitarras perfeitamente discerníveis formam uma parede de som acolchoada por um baixo tenso e uma bateria frenética, cheia de batidas nos tons e pratos tão comprimidos quanto os gritos do vocalista Pedro Museka.

No auge dos meus quarenta e quase três anos, é raro eu ser surpreendido. A Sorosoro conseguiu exatamente isso. A gente escuta música pra caralho aqui no Under Floripa. A gente vive música, respira música. A gente ama isso mais do que qualquer coisa. Então, quando alguma coisa me surpreende, me encanta, me fascina, o sentimento é quase único — e genuíno.

Claro, eu já tinha assistido aos rapazes no Banda de Casinha há pouco menos de um mês. Eu conhecia as músicas lançadas antes do álbum e até a supracitada “Jogo da Galinha” eu ouvi com a câmera na mão, batendo o pé e a cabeça, esquecendo a câmera no foco manual e perdendo metade das fotos daquele show.

A minha surpresa já não é mais com a qualidade da banda, nem com a energia ou a força deles ao vivo. O que realmente impressiona é perceber como tudo isso foi transportado com sucesso para o disco. Não é que o álbum tenha cheiro de ao vivo — ele é tão próximo de uma apresentação da Sorosoro que quase consigo vê-los tocando na minha frente.

É curioso ver um álbum de estreia desse gabarito. Uma banda que chega madura, com uma identidade própria já bem consolidada — e, sobretudo, com coragem. Coragem de errar, de dar às músicas títulos esquisitos à Mogwai, escrever e cantar letras nonsense, de experimentar e se jogar de cabeça na experiência coletiva de fazer música com outras pessoas para que outras pessoas — como você e eu — possam escutá-la.

“Jogo da Galinha” é uma analogia quase perfeita para o álbum. Movimentos ímpares, ataques fora de ordem e transições claras entre partes bem construídas. Tem singles óbvios — como “Eu e você como alegoria para a Guerra Fria” —, post-um-monte-de-coisas — “nichetok/corecore” e “(HEAVY STORM DUSTER)” —, ritmos brasileiros em faixas como “Sutileza” e “Eu já não aguento mais”, e mais acordes dissonantes do que seu ouvido provavelmente consegue perceber enterrados numa mixagem primorosa e uma produção competente.

Se você chegou a Eu e Você ou tudo o que eu não quero que você saiba pelos singles, já está caminhando em terreno familiar. Mas se nunca ouviu a Sorosoro, escute este álbum. Da abertura, depois o primeiro single — “AH! EU ODEIO TRABALHAR” (sim, em caixa alta) — até o encerramento com mais uma música dedicada a uma tal de Anna Liz, o disco forma um conjunto coeso de faixas, tocadas por músicos competentes que, acima de tudo, parecem se divertir e se entregar de corpo e alma ao que estão fazendo.

E se tiver a chance de ver a banda ao vivo, vá. Eu prometo que vale cada minuto.

8.9

Eu e Você ou tudo o que eu não quero que você saiba – Sorosoro

Gravadora: Seloselo

Eu também odeio trabalhar, rapazes. Por favor, não batam a cabeça na mesa até sangrar.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.