Os Strokes nunca foram uma unanimidade: ou você gosta, ou simplesmente não suporta a banda. Se, por um lado, é inegável o legado construído na virada do milênio, tornando-se um dos principais catalisadores da explosão do indie rock nos anos 2000, por outro, o grupo também acumulou apresentações irregulares, performances apáticas e uma nonchalance quase crônica que marcou boa parte de sua trajetória após o auge.
Agora, os nova-iorquinos retornam com “Reality Awaits”, seu sétimo álbum de estúdio. São nove faixas distribuídas em pouco mais de 42 minutos que, logo nas primeiras audições, deixam uma impressão bastante positiva, ainda que possam frustrar quem continua esperando por um novo hino indie nos moldes de “Last Nite”. Mas assim, quem acompanha minimamente a evolução da banda sabe que Julian Casablancas, Albert Hammond Jr., Nick Valensi, Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti vêm transformando sua identidade há bastante tempo.
Isso não significa, porém, que todas as escolhas funcionem. O uso intenso de autoafinação na voz de Julian, por exemplo, me soou bastante excessivo. Em alguns momentos, o resultado é artificial demais, quase robótico eu diria. E em tempos em que a inteligência artificial ocupa cada vez mais espaço nas discussões sobre criatividade e produção musical, essa característica acabou me causando um certo estranhamento.
Musicalmente, o álbum abre com “Psycho Shit”, uma faixa disruptiva, tensa e bastante diferente do restante do trabalho. Aos poucos, porém, “Reality Awaits” encontra seu equilíbrio com “Dine N’Dash”, “Lonely in the Future” e “Falling Out of Love”, minha segunda música favorita do disco. A faixa entrega uma melodia belíssima, uma interpretação emocional e uma letra sobre o fim de um relacionamento que ganha força em versos como “Some things are flawed by design”.
Para os mais saudosistas, o grande destaque é, sem dúvida, “Going Shopping”. Trata-se da música mais “strokesiana” do álbum: um indie rock afiado, sustentado por um riff insistente e uma letra que satiriza o consumismo.
Depois de três ou quatro audições em poucas horas, a sensação que fica é a de que “Reality Awaits” representa o amadurecimento natural dos Strokes. Há boas composições, faixas com potencial, doses generosas de melancolia e uma nostalgia que nunca soa oportunista nem vive apenas da repetição do passado.
No fim das contas, talvez seja preciso aceitar duas realidades. A primeira é que os Strokes envelhecem junto com seu público, carregando à luz do dia as próprias fissuras, traumas e inquietações criativas. A segunda é que nós também envelhecemos. Já passamos dos trinta, ou dos quarenta, para muitos e, gostemos ou não, a vida vai passando. E ela nunca espera por ninguém.
Reality Awaits – The Strokes
Gravadora: RCA Records / Cult Records.
Os Strokes envelhecem sem perder a identidade em "Reality Awaits".
