Após anos de inúmeras tentativas fracassadas de adaptar para o cinema um de seus livros preferidos, enfim o cineasta Guillermo Del Toro conseguiu apresentar sua versão de Frankenstein, baseada no clássico romance de Mary Shelley publicado pela primeira vez em 1818 . E tudo graças a uma bem-sucedida parceria com a Netflix, com quem Del Toro realizou a série Gabinete de Curiosidades e a animação em longa-metragem Pinóquio, a qual lhe rendeu seu segundo Oscar em 2023. Ele já havia vencido como melhor diretor em 2018, por A Forma da Água, uma história original, mas bastante inspirada pelo filme O Monstro da Lagoa Negra, de 1954.
Como é perceptível, essas produções consagradas possuem algo em comum: o núcleo de suas tramas sempre gira em torno de personagens que, apesar de estigmatizados e perseguidos em razão de suas aparências “monstruosas”, apresentam traços de humanidade, empatia e caráter que atraem a simpatia do público, ao mesmo tempo em que conduzem os espectadores a reflexões existenciais relacionadas à maneira como somos capazes de desenvolver sentimentos de amor e amizade nos mais improváveis contextos.
Trata-se de um conjunto de temas muito caros a Del Toro e que retornam nesse Frankenstein de 2025. O roteiro, familiar para aqueles que já assistiram a pelo menos alguma das adaptações ou leram o romance de Shelley, nos apresenta a Victor Frankenstein, médico e pesquisador obcecado por desenvolver experiências que criem vida através da ciência, após uma trajetória traumática que envolveu a morte prematura de sua mãe, o desprezo do pai e uma complicada relação com o irmão caçula, a quem Victor constantemente manipula. Depois de algumas tentativas frustradas, o cientista enfim obtém sucesso em forjar uma criatura a partir de várias partes de corpos humanos recolhidos aleatoriamente. No entanto, desapontado com a própria criação, Victor a rejeita, sujeitando-a a uma jornada de autoconhecimento marcada pela descoberta de sentimentos como amizade, solidão e fúria.
Optando por dividir sua narrativa em capítulos que ora exploram o ponto de vista do cientista, ora o da criatura, Del Toro conduz seu filme de maneira muito segura, explorando com maestria os sensacionais cenários reais criados por sua equipe de direção de arte. Tudo é muito suntuoso e impactante, mesmo que pontuado por efeitos digitais nem sempre convincentes. Assim como ocorreu com o Nosferatu de Robert Eggers, temos aqui uma produção caprichada, na qual é visível o empenho e o investimento para transportar o espectador à Europa do Século XIX.
No entanto, nada disso tornaria a experiência grandiosa suficiente se o elenco escalado para dar vida aos personagens não estivesse à altura da empreitada. Nesse ponto, são destaques as atuações de Oscar Isaac, como um Victor ao mesmo tempo vilanesco e atormentado, e de Jacob Elordi, que consegue, mesmo sob todo o peso da maquiagem, transmitir as emoções requeridas em cada uma das etapas do arco de seu personagem. Todavia, tanto Christoph Waltz quanto Mia Goth restam um tanto quanto desperdiçados, embora também tenham bons momentos no filme. Goth, especialmente, é a responsável por uma das cenas mais emotivas da produção, e que remete imediatamente a situações desenvolvidas em A Forma da Água.
Propositadamente melodramático em alguns momentos, Del Toro é eficiente ao despertar reflexões existenciais relativas a temas recorrentes à humanidade, como a ética na ciência, a origem da vida, o papel do amor e da empatia nas relações humanas e a possibilidade de redenção para aqueles que parecem entregues a um destino inevitavelmente trágico.
Mesmo que redundante e excessivamente didático em certas passagens, o diretor imprime suficiente sensibilidade a seus personagens, fazendo com que o espectador se interesse pelo destino de cada um deles e jamais deixe de acompanhar com interesse o velho embate entre criador e criatura, que ganha seu ápice em uma sequência verdadeiramente emocionante e reflexiva, mesmo que contenha uma certa pieguice.
A satisfatória conclusão ganha dimensões épicas a partir do belo trabalho de fotografia de Dan Lausten, que nos mantém imersos no drama dos personagens principais sem descuidar dos enquadramentos que valorizam bastante os cenários naturais absolutamente deslumbrante. Além disso, o filme incorpora tons épicos em razão da excepcional trilha de Alexandre Desplat, uma das melhores do ano até agora. Ao final, encerramos a jornada com a forte sensação de termos presenciado um grande espetáculo imagético e com a certeza de que determinadas indagações existenciais nos tocam mais profundamente quando somos confrontados com nossa eterna incapacidade para perceber a verdadeira beleza.



