Termodinâmica: Stick to Your Guns & Bane no Hangar 110

Termodinâmica: Stick to Your Guns & Bane no Hangar 110

(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

“Eu espero que vocês ainda tenham um pouco de energia sobrando depois que a Stick to Your Guns explodiu o teto deste lugar!”

As palavras saíram da boca de Aaron Bedard, vocalista da Bane, logo no início do show da banda — o terceiro e último daquela noite de sábado.

Mas antes de chegar em Bane e Stick to Your Guns, vale voltar ao começo.

O clima em São Paulo não estava dos mais convidativos. O ensolarado feriado do Dia do Trabalhador havia dado lugar a um sábado meio tristonho, com uma leve garoa no fim da tarde. Do lado de fora do Hangar 110 — casa que há quase trinta anos é sinônimo de punk e resistência na cidade —, pessoas de todas as idades, em sua maioria vestindo camisetas pretas de banda, fumavam e conversavam, enquanto alguns já se posicionavam do lado de dentro.

Pontualmente às 17h30, trinta minutos após a abertura da casa, os goianos da Uttara subiram ao palco. O show foi curto, porém competente. O público, ainda tímido, demorou a se aproximar. Ikaro Stafford chamava as pessoas para perto do palco, pedia roda e chegou até a ensaiar um two-step — seguido por alguns. No breve set, rolaram as faixas do EP Chapter One: Becoming, lançado em janeiro deste ano.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Uma pena que muitos ainda não estavam lá para ver ou preferiram ficar no fundo da casa, de braços cruzados. Apesar da reação morna, a banda deu tudo de si e parecia genuinamente feliz por estar ali. Agradeceram à produtora por trazer uma banda da distante Goiânia para abrir uma noite tão importante — e também a quem chegou cedo para acompanhar o show.

A casa, que até então estava em meia lotação, foi enchendo aos poucos. Posicionado perto do palco, ao som de “Take On Me”, do A-ha, eu via os outros fotógrafos se organizando estrategicamente. Ao meu lado, a colega Raíssa Corrêa me lembrou que teríamos poucos segundos para fazer o máximo de fotos possível antes da insanidade começar. Provavelmente foi generosa: assim que o primeiro acorde de guitarra soou, fomos ejetados para as laterais do palco, enquanto uma roda furiosa tomava conta do centro do Hangar.

O que veio em seguida foi avassalador. Uma sessão praticamente ininterrupta de moshes, rodas, crowdsurfing, suor e fúria — daquelas que engolem o espaço e apagam qualquer noção de tempo. O Hangar 110 deixou de ser uma casa de shows e virou um corpo só.

Até que tudo parou.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

No meio do caos, uma pessoa que se jogou do palco acabou se machucando, forçando uma interrupção imediata. As luzes se acenderam, Jesse Barnett pausou o show para pedir atendimento, e o barulho deu lugar a um silêncio estranho, desconfortável — enquanto, lá no fundo, a notícia ainda corria de boca em boca. O show só voltou depois que ficou claro que estava tudo bem: antes do primeiro acorde, o guitarrista Josh James lançou um “You OK?” rouco na direção da pessoa e, com a resposta, a banda retomou exatamente de onde havia parado, no máximo, como se a pausa tivesse sido apenas um breve respiro no meio da explosão.

A pausa forçada acabou revelando um traço essencial da postura da banda no palco: o que poderia soar como intensidade descontrolada tinha, no fundo, um senso claro de coletivo. O show da Stick to Your Guns não era apenas sobre tocar, mas sobre construir, junto com o público, um espaço de troca — gente subindo ao palco, se jogando, gastando tudo o que ainda tinha, como se a energia precisasse circular. Esse espírito também atravessava o discurso: Jesse Barnett tocou em feridas políticas, criticou o imperialismo norte-americano, exaltou a América Latina, citou o MST e pensadores da região como influências e descreveu estar ali como uma experiência quase espiritual, comparando a passagem a uma ida a Meca — para ele, aprender a resistir hoje passa por olhar para quem sempre resistiu.

No meio de tudo isso, a ausência do baixista Andrew Rose quase passava despercebida. Quase.

Veio o intervalo, e o clima esfriou. A casa, visivelmente mais vazia, já não pulsava da mesma forma. Até a Bane entrar em cena.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Após uma abertura explosiva, Aaron Bedard retomava o espírito da noite com a provocação que abre este texto: “Eu espero que vocês ainda tenham um pouco de energia sobrando depois que a Stick to Your Guns explodiu o teto deste lugar!” — meio em tom de brincadeira, meio como quem testa a temperatura da sala.

Diferente da intensidade quase sufocante do show anterior, a Bane parecia mais solta — e, acima de tudo, se divertindo. Havia leveza no palco: Aaron Bedard e o guitarrista Zach Jordan trocavam caretas, riam entre as músicas e, em vários momentos, Jordan se permitia pequenas firulas na guitarra, flertando com técnicas como o double tapping e arrancando reações de quem acompanhava mais de perto. Após a ebulição da Stick to Your Guns, o ambiente era menos de confronto e mais de comunhão — como se banda e público compartilhassem não só a energia, mas também o prazer de estar ali.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

A noite seguiu quase como uma progressão. Começou morna com a Uttara, ainda buscando aquecer o público; atingiu um pico de pressão quase insustentável com a Stick to Your Guns; e encontrou, na Bane, uma espécie de liberação — um momento de respiro sem perda de intensidade. Quase como um sistema em ebulição que, depois do ápice, encontra seu ponto de equilíbrio.

Ao sair da casa, me peguei pensando por que a Bane havia fechado a noite, e não a Stick to Your Guns. Mas bastou encarar a multidão — suada, sorridente, ainda processando tudo aquilo — para a dúvida perder força. Dei uma tragada no cigarro e segui em direção à estação de metrô, rindo comigo mesmo. As coisas aconteceram exatamente como tinham que acontecer.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.