American Football – American Football (LP4) (2026)

American Football – American Football (LP4) (2026)

(Reprodução)

Feriado de Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador.

Acordei cedo e fui ao Parque do Ibirapuera dar um giro de bicicleta. Era um dia ensolarado e fresco. Eu estava sonolento no ônibus e fui ouvindo o recém-lançado álbum da American Football, o quarto autointitulado da banda, no caminho. Peguei no sono. Mal passei da segunda faixa, aquela com Brendan Yates, da Turnstile. Chegando ao parque, pego aquela bicicleta odiosa de três marchas do banco laranja e boto os fones novamente. Dou play outra vez.

Nope. Vibe errada. Vibe erradíssima.

No dia seguinte, um sábado garoento e feioso, tentei novamente.

Já se passaram quase trinta anos desde que Mike Kinsella e companhia lançaram seu primeiro álbum.

Quando ouvi “Never Meant” pela primeira vez, há uns vinte anos, a vida parecia muito mais difícil, embora hoje eu perceba que meus problemas eram menores, porém não menos importantes. Eu sinceramente não me imaginava chegando aos 43 anos. Hoje, ouvindo LP4, a melancolia ainda mora naquela mesma casa, mas mudou de quarto. Ela não está mais nos términos de namoro ou nos telefonemas que nunca vieram. Ela mora nas concessões, arrependimentos, e em infinitos não ditos. Mora nos relacionamentos que sobreviveram e, principalmente, nos que se perderam pelo percurso.

E sim, nos relacionamentos platônicos também.

Musicalmente, LP4 soa muito mais como aquela manhã cinzenta de sábado. Não há o brilho de um céu outonal, muito menos a energia de um parque cheio de gente. Há apenas a luz opaca de um dia que acordou indeciso, pairando entre a chuva e a claridade. As guitarras de Mike Kinsella e Steve Holmes continuam tão icônicas quanto suas afinações alternativas, mas agora servem menos como protagonistas e mais como parte da paisagem. Tudo parece mais comedido, e a banda soa mais interessada em construir sensações do que canções. Há momentos em que os instrumentos surgem de uma névoa de texturas sutis, como memórias, mágoas e arrependimentos que aparecem sem aviso. O resultado é um disco mais contemplativo e menos inquieto, mesmo quando soa desconfortável.

Mike Kinsella tem seis anos a mais do que eu. Seu irmão Nate tem apenas três. Em 1999, essa distância parecia enorme. Em 2026, ela é irrelevante. Pela primeira vez, não estou ouvindo alguém narrar uma fase da vida pela qual ainda vou passar. Estou ouvindo alguém alguns quilômetros adiante na mesma estrada.

8.9

American Football (LP4) – American Football

Gravadora: Polyvinyl Record Co.

Talvez a verdadeira resenha sejam os amigos que a gente fez pelo caminho.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.